O desabamento do edifício Palace II – Do sonho da casa própria ao pesadelo do desabrigo

A tragédia entrou para a história do Brasil ao mostrar como, em nosso país, seguir leis e regras não se aplica a pessoas poderosas e como as vidas de muitas pessoas ficam à mercê de um sistema corrupto, que, frente ao dinheiro e poder, não se importa em destruir famílias, esperanças e sonhos. Essa é a triste e revoltante história do desabamento do edifício Palace II.

Carro é içado dos escombros do edifício.
Foto – AFP

Era dia 22 de fevereiro de 1998, feriado prolongado de Carnaval, quando, às 3 horas da madrugada, ouviu-se, a quilômetros de distância, o desmoronamento de parte de um prédio de 22 andares, localizado na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Final do Campeonato Carioca de 2001, entre Vasco e Flamengo.
Foto – Ana Carolina Fernandes / Folha.

Por volta da meia noite e meia daquele triste dia, parte dos moradores do edifício Palace II, ouviu barulhos na estrutura do prédio, houve uma tentativa de evacuação, mas nem todos os residentes saíram. Às 3 da madrugada, houve o desmoronamento de 44 apartamentos, que caíram no chão, levando a vida de 8 pessoas e alterando radicalmente a vida de 170 famílias, menos a do deputado Sérgio Naya, dono da construtora responsável pelo desastroso projeto.

O Palace II foi obra da construtora Sersan, pertencente ao deputado federal Sérgio Naya. A obra sofreu vários embargos ao longo do processo de construção, uma dessas interdições se deu por conta da morte de um operário que não fazia uso obrigatório dos equipamentos de segurança. Além das interdições, a Sersan havia sido processada mais quatro vezes, uma delas pela prefeitura do Rio, por causa de falhas e deterioração em terrenos de terceiros, decorrentes das obras mal executadas. Mesmo com todas as irregularidades constatadas, o processo de construção continuou seguindo a pleno vapor, certamente pelo trabalho do influente dono da construtora nos bastidores do poder. Porém, a entrega dos apartamentos atrasou, causando transtorno na vida dos futuros moradores, fato que desencadeou uma briga judicial, mesmo antes da entrega das chaves. A obra estava toda errada desde o princípio.

Moradora Rosana Bacellar protesta em frente ao fórum do Rio de Janeiro.
Foto: Patrícia Santos – Folha (reprodução)

Todo esse descaso e ilegalidade vieram à tona de forma sombria naquela madrugada do dia 21 para o 22. Quando o Brasil inteiro acompanhou o desespero de famílias que não conseguiram tirar suas coisas, fruto de anos de trabalho, de dentro de suas casas. Filhos, esposas, amigos, parentes, ficaram debaixo dos escombros. A tragédia só não foi maior, pois o coronel do corpo de bombeiros, Marcos Silva, também morador do residencial, organizou a saída dos moradores e salvou muita gente. A TV mostrava o desespero e desolamento dos condôminos esperando notícias dos parentes e amigos desaparecidos. Os bombeiros, desesperados e sem equipamentos necessários, chegavam a cavar com as mãos, na esperança de retirar pessoas com vida, e foi assim o dia todo, naquela segunda-feira de Carnaval, até a defesa civil impor a paralisação dos resgates, pois descobriram que os entulhos do desmoronamento estavam segurando o que sobrou do prédio. Se os bombeiros insistissem no resgate, a parte que sobrou poderia cair, causando mais destruição, mortes e prejuízo para terceiros.

Operário coloca etiqueta em um dos pilares.
Patrícia Santos – Folha

Após a tragédia, uma série de arbitrariedades, ilegalidades e descasos tomaram conta do caso. A princípio, um morador encontrou nos destroços pedaços de concreto com conchas do mar, o que levou a imprensa e órgãos públicos a desconfiarem de um possível uso absurdo de areia da praia, misturada com a adequada, na estrutura de alvenaria do prédio. Os laudos da perícia constataram que os materiais utilizados eram de péssima qualidade e que havia erros grotescos no projeto. Fatores que deixaram o custo e o preço final do empreendimento abaixo do valor tipicamente cobrado naquela região, considerada área nobre da cidade.

Sérgio Naya é conduzido por policiais em greve, após ser preso, em Porto Alegre.
Foto: Arquivo Gazeta do Povo

Com um custo bem abaixo do mercado, a Sersan investiu em uma campanha massiva de marketing e rapidamente vendeu todos os apartamentos do Palace II. Nas peças de propaganda, chegaram a divulgar o empreendimento como uma promoção patrocinada pelo deputado que queria ver a classe média morando próxima da praia. Ou seja, venderam algo que não poderiam entregar, um lar seguro para famílias que guardaram dinheiro a vida toda para realizar o sonho de ter esse lar.

Bombeiros e funcionário da defesa civil observam os escombros, no momento em que descobriram que não poderiam mais mexer nas ruínas, pois elas estavam segurando o que sobrou do prédio.
Foto: Publius Virgilius – Folha

No final de 1998, passados 10 meses da tragédia, a rede Globo mostrou Sérgio Naya passando o réveillon em Orlando, na Flórida, onde tinha um hotel, que teve uma das torres embargadas pela justiça do estado norte-americano por falta de pagamento de impostos (lá o deputado não tinha influência), o político aparecia comendo camarão e tomando champanhes caros, em uma festa com muitos convidados, enquanto as vítimas do desabamento choravam abraçadas em uma praia carioca.

Pedaço de concreto com concha do mar, encontrado entre as ruínas do edifício.
Foto: Arquivo N – Globonews

Naya parecia um deputado confiável, mas se mostrou um empresário irresponsável e até mesmo inescrupuloso. Após a tragédia, investigações do seu passado trouxeram à tona muitos absurdos em sua história como empreendedor. Em sua carreira, fechou uma rádio e não pagou os funcionários, dois de seus hotéis foram embargados por irregularidades fiscais. Começou a construir um Shopping Center no Rio de Janeiro sem ter obtido autorização e outras inúmeras práticas ilegais que passaram à revelia do poder público em função da influência e dinheiro do magnata.

O bombardeamento da mídia sobre a figura de Naya fez a opinião pública ficar contra o deputado, o que rendeu a ele uma perda de prestígio e influência nas instâncias de poder. Nessas condições, a Câmara Federal agiu e ele teve seu mandato cassado e perdeu os seus direitos políticos. Sem a imunidade parlamentar e no calor da tragédia, a justiça comum condenou-o à prisão, que não durou muito tempo, pois, em segunda instância, a justiça absolveu Naya do crime de desabamento culposo. E ele foi solto, mesmo tendo usado materiais de péssima qualidade e inadequados na construção e não tendo cumprido toda a legislação necessária para garantir a segurança dos clientes. Uma história típica do país tão desigual em que vivemos.
O fim dessa história é ainda mais triste e revoltante. Civilmente, o político foi condenado a pagar 70 milhões em indenizações para as vítimas do desmoronamento, as indenizações, porém, não foram pagas adequadamente.

Propaganda de venda de apartamentos do Edifício Palace II, no início dos anos 90.
Documentário – PALACE II – 3 QUARTOS COM VISTA PARA O MAR / Globofilmes/ Direção – Rafael Machado, Gabriel Correa e Castro

Em 2009, Sérgio Naya foi encontrado morto em uma de suas luxuosas casas. A associação das vítimas do Palace II entrou com um processo na justiça, pois, segundo investigações, o político teria colocado 100 milhões de reais, boa parte de seu patrimônio, no nome de laranjas, o que impediria o pagamento das indenizações devidas. Até o início de 2019, com juros e correções monetárias, o montante das indenizações passava de 200 milhões de reais. Em todos esses anos, no entanto, foram pagos apenas 47 milhões.

Foram duas décadas de luta para que os moradores conseguissem apenas um quarto do que era devido pela construtora. Fatos que mostram como poder, dinheiro e influência são capazes de criar injustiças terríveis contra pessoas que apenas perseguiam o tão esperado sonho da casa própria.

Referências:

https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/morre-o-empresario-e-ex-deputado-sergio-naya-bfsbhtjmhjc5oojyyy0bjkaxa/

https://noticias.uol.com.br/album/2013/02/22/desabamento-do-edificio-palace-2-no-rio-de-janeiro-completa-15-anos.htm?mode=list&foto=11

https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=12&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjzuPSp5fjmAhWII7kGHSCsAmAQFjALegQIARAB&url=https%3A%2F%2Fglobofilmes.globo.com%2Ffilme%2Fpalace-ii-3-quartos-com-vista-para-o-mar%2F&usg=AOvVaw1BueFDN9ORdtI7MRYrMlc5

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/04/nao-vai-passar-nao-diz-moradora-do-palace-2-a-familias-de-predios-desabados-no-rio.shtml

https://www.riomemorias.com.br/memorias/palace-ii

https://www.youtube.com/watch?v=MgllTTq65kc

https://fotos.estadao.com.br/galerias/acervo,palace-ii,41066

https://www.tudoengcivil.com.br/2018/07/palace-2.html

https://www.ibccrim.org.br/artigo/389-Decisoes-Sentenca-do-caso-Sergio-Augusto-Naya-Edificios-Palace-I-e-II-RJ

https://www.cimentoitambe.com.br/novela-lembra-20-anos-do-palace-ii-o-que-e-mito-o-que-e-verdade/

https://www.youtube.com/watch?v=QUDRtjPv-DA

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