100 anos de Clarice: conheça quatro obras fundamentais para entender a autora

“Este ano está havendo muito movimento em torno de mim, Deus sabe por quê, pois eu não sei. Isso me deixa um pouco perplexa. […] Uma das coisas que me deixam infeliz é essa história de monstro sagrado: os outros me temem à toa, e a gente termina se temendo a si própria. A verdade é que algumas pessoas criaram um mito em torno de mim, o que me atrapalha muito: afasta as pessoas e eu fico sozinha. Mas você sabe que sou de trato muito simples, mesmo que a alma seja complexa.”

Retirado de um depoimento dado por Clarice Lispector à sua amiga Olga Borelli, o fragmento acima retrata bem a fascinação que essa autora exerce sobre seus leitores. Ao produzir obras cujo foco é a temática da existência, a autora nos lança sobre um mundo de mistério e desnudamento de nossa alma.

Para Helena Silveira, as páginas de Clarice “são lâminas e as grandezas do consciente e do inconsciente humano”. Mergulhar em seus escritos é uma experiência única, vivida singularmente por cada um de seus leitores. A melhor forma de homenageá-la é adentrando nesse universo de fascinação e mistério. Indicamos aqui quatro obras que podem ajudar a compor um belo percurso pela trajetória da literatura de Clarice Lispector. Apresentamos apenas uma breve síntese, nada que comprometa a experiência individual da leitura, nem que pretenda fazer uma análise profunda, algo impossível de se fazer em poucas linhas.

Laços de família

Publicado em 1960, é uma coletânea de 13 contos que se interligam através da exploração do tema do desentendimento familiar. Focada nas relações interpessoais e na constante busca de compreensão do eu, Clarice Lispector apresenta um conjunto de personagens que olham no espelho de sua alma e procuram se compreender.

Através de um olhar revelador, as personagens dos contos mergulham em um fluxo de consciência que as leva para uma epifania.

Aos leitores resta “ver” o que acontece através desse olhar e adentrar por esse turbilhão de emoções que tomam conta das personagens e as lança para a redescoberta de si mesmas. A partir do contato, do encontro, da descoberta, as personagens clariceanas vão se constituindo e as diferentes faces do ser humano vão sendo desveladas, a multiplicidade de sentimentos vai transbordando, os estados de ânimos e os desejos ganham vida a partir da escrita de Clarice Lispector.

A paixão segundo G.H

Publicado em 1964, o livro é narrado por G.H, uma escultora amadora que se vê diante da tarefa de arrumar o quarto da empregada que tinha ido embora. Em meio a esse fato corriqueiro, ela se depara com uma barata e esse acontecimento banal será o responsável por desencadear um intenso fluxo de consciência que levará a personagem a uma profunda reflexão sobre a sua existência.

No embate entre ser humano e inseto, a narradora começa um mergulho pelo interior de sua alma, quebrando tanto o invólucro da barata quanto o seu, rompendo o corpo do inseto e as suas barreiras psíquicas.

Conforme G.H., “O horror será a minha responsabilidade até que se complete a metamorfose e que o horror se transforme em claridade”. Ao atingir a claridade, será alcançada a epifania e a metamorfose da narradora. Após uma viagem por si mesma, ela descobre a sua identidade e o porquê de estar no mundo.

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Publicado em 1969, o livro é um grande mergulho nas profundezas da alma. Através de Lóri, uma professora primária do Rio de Janeiro, somos lançados ao percurso de uma mulher que não sabe se relacionar com os outros nem com o mundo. Ela apaixona-se por Ulisses, um professor universitário, e, a partir desse relacionamento, vai moldando-se para atender aos desejos do amado.

“A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”. A partir dessa premissa, vamos acompanhando o processo de transformação de Lóri nesse ser humano, alguém que se reconstrói a partir do momento em que descobre o amor e o prazer.

Sob o olhar feminino, a constituição da relação homem-mulher vai sendo apresentada, num confronto entre o “destino de mulher” esperado e aquilo que Lóri realmente deseja. Perdida em meio ao real significado do amor e do prazer feminino, a personagem vai fazendo a sua travessia, constituindo-se como mulher, deixando de lado a vergonha que sentia do próprio corpo e rompendo os tabus que existem sobre a busca do prazer.

Para encontrar-se, ela precisa deixar de ser, abandonar suas certezas e reaprender a olhar para si e para o mundo. Assim, ela redescobrirá o prazer e, finalmente, alcançará a possibilidade de ser.

A hora da estrela

Escrito em 1976 e publicado um mês antes da morte de Clarice Lispector, “A hora da estrela” é uma de suas obras mais famosas. Através do narrador Rodrigo S.M., a autora nos introduz numa reflexão sobre a própria escrita, partindo do dilema desse escritor que precisa contar a história de Macabéa, mas enxerga a sua personagem como alguém insignificante demais, cuja história se resume à orfandade, ao emprego como datilógrafa, a um namoro fracassado e a um final trágico.

Macabéa é a nordestina que vem para o Sudeste em busca de um sonho. Com uma vida marcada pela invisibilidade e pela falta de consciência de que poderia brigar por seu lugar no mundo, ela sonha com o momento em que se tornará estrela, ao mesmo tempo em que não se dá conta do processo de exclusão que marcou toda a sua vida.

Enquanto o narrador questiona: “Por que escrevo?”, a protagonista vai sendo levada pelas circunstâncias da vida, sem questionar o apagamento que sofre diariamente do seu lugar no mundo. Rodrigo S.M responde ao seu questionamento: [escrevo] “Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz o conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de ‘força maior’, como se diz nos requerimentos oficiais, por ‘força de lei’”.

O narrador é o detentor da palavra ele escreve para constituir-se como autor, já Macabéa encontra-se totalmente desprovida dela, sozinha no mundo, desprezada, sem compreender o real sentido da condição humana, vivendo a insignificância de alguém excluída desde o nascimento.

Numa obra marcada pela reflexão sobre a própria escrita, pela análise psicológica e social, Clarice Lispector nos insere em um fluxo constante de análise da existência de Macabéa, de Rodrigo S.M. e de nós mesmos, que somos lançados nesse universo de sensações e múltiplos caminhos.

Referências:

BORELLI, Olga. Clarice Lispector. Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

GOTLIB, Nádia. Clarice: Uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.

NUNES, Benedito. O Drama da Linguagem. Uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989. SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes, 1979.

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