Fábrica de viúvas: a história da AK-47

Considerada uma das armas mais letais da história, a AK-47 está presente em todos os continentes. Estima-se que existam 100 milhões de fuzis desse tipo no mundo e que ele seja usado para matar cerca de 300 mil pessoas por ano.

A sigla AK é uma abreviação para “Avtomat Kalachnikova”, em referência ao seu criador Mikhail Kalashnikov, que venceu um concurso promovido por Joseph Stálin cujo objetivo era criar uma arma automática que pudesse ser usada por todos os países comunistas.

Kalashnikov tinha começado o projeto do fuzil cinco anos antes, quando se recuperava de um ferimento sofrido em combate durante a Segunda Guerra Mundial.

Seu projeto é bem semelhante ao do fuzil alemão SturmGewehr. Além disso, a sua capacidade de alcance é bem parecida com a dos fuzis americanos AR-15 e M-16. A diferença é que a AK-47 é mais simples. Feita com apenas 8 peças, pode ser montada rapidamente por qualquer pessoa, o que permite ao soldado consertar a sua arma em campo de batalha. Além disso, é uma arma muita resistente e, por isso, tão usada em guerrilhas.

Usado para matar pelo menos 7 milhões de pessoas no mundo, a AK-47 foi a principal arma usada na Guerra do Vietnã, chegou ao continente africano e passou a ser usado por diversas tribos guerreiras, está grafada na bandeira de Moçambique, ganhou monumento na Nicarágua, é uma das armas mais usadas pelo narcotráfico colombiano, vive nas mãos dos terroristas islâmicos e é muito conhecida nos morros cariocas, desfilando nas mãos dos traficantes do Rio de Janeiro.

A arma que encantou Stálin teve a sua licença de fabricação distribuída gratuitamente para os países comunistas do Leste Europeu, chegando algum tempo depois à China e à Coreia do Norte. Qualquer país que se declarasse comunista poderia produzi-la e isso fez com que o seu alcance ao redor do mundo se tornasse cada vez maior.

Durante a Guerra do Vietnã, o fuzil AK-47 foi decisivo. Ele resistia à lama e à poeira das selvas vietnamitas e era muito bom em disparos mais próximos do alvo, mostrando-se muito mais eficiente que o M-16 usado pelos americanos, que falhava por causa da sujeira e umidade do front de batalha.

Mesmo com o fim da União Soviética, o fuzil continuou sendo uma arma extremamente usada, espalhando-se pelas mãos de terroristas, assassinos e traficantes. O arsenal soviético, montado durante a Guerra Fria, precisava ser desovado e a AK-47 passou a ser comercializada por um valor bem abaixo do que o normal. Vendida ilegalmente por militares, ela se espalhou pelo mundo através do mercado negro.

Em diversos países africanos a AK-47 é vendida a rebeldes africanos em troca de diamantes. Na Libéria, por exemplo, crianças foram armadas com esses fuzis para lutarem na Frente Patriótica Nacional do país. Na América do Sul, ele foi comprado com cocaína, chegando à Nicarágua em 1970 e se espalhando por outros países.

Ao falar sobre a sua famosa criação, Mikhail Kalashnikov dizia dormir tranquilo. Segundo ele, “O fato de as pessoas morrerem por causa do AK-47 não se deve ao seu inventor, mas à política”. E foi justamente através de conflitos políticos que o fuzil criado por Kalashnikov se popularizou, estando presente em tantos conflitos. 

A história desse fuzil pode ser encontrada em detalhes no livro “Rajadas da História – O Fuzil AK-47 da Rússia de Stálin até Hoje”, no qual é narrada a vida de Kalachnikov e a trajetória de sua famosa criação, que já passou pela mão de quase todos os grupos guerrilheiros e terroristas surgidos depois da Segunda Guerra. Embora Mikhail Kalashnikov tenha afirmado que queria ser lembrado por ter criado uma arma capaz de defender as fronteiras de seu país, não para ser a arma dos terroristas, seu fuzil esteve e está presente nas mãos de muitos grupos extremistas ao redor do mundo, tendo matado muito mais do que qualquer outra arma, deixando um mar de sangue por onde passa e muitos órfãos e viúvas que puderam presenciar a força e o alcance dessa arma nas mãos de terroristas, traficantes e assassinos.

Referências:

https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/inventor-mortal-mikhail-kalashnikov-ak-47/

https://epoca.oglobo.globo.com/tempo/noticia/2014/01/no-fim-da-vida-bkalashnikov-sentiu-peso-na-conscienciab-pelo-ak-47.html

KALACHNIKOV, Mikhail e JOLY, Elena. “Rajadas da História – O Fuzil AK-47 da Rússia de Stálin até Hoje”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

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