“Caminho Suave”, a cartilha usada na alfabetização de brasileiros por mais de quatro décadas

A discussão sobre qual o melhor método de alfabetização é pauta frequente no país. Além dos educadores, linguistas e pedagogos que se debruçam sobre o estudo da questão, é muito comum vermos qualquer pessoa se manifestando sobre qual a melhor forma de ensinar uma criança a ler e escrever.

Normalmente, as opiniões dos leigos no assunto partem de suas experiências pessoais e da lembrança que guardam dessa fase da vida. Em meio a essas lembranças é bastante comum aparecer a referência à obra “Caminho suave”, cartilha que esteve amplamente presente nas salas de aula entre 1950 e 1990 no Brasil.

Estima-se que mais de 48 milhões de brasileiros tenham aprendido a ler seguindo as imagens associadas a letras presentes na cartilha e a combinação de frases simples que exploravam as letras apresentadas em cada lição.

Produzida pela professora Branca Alves de Lima em 1948, a “Caminho Suave” surgiu para ajudar os alunos da alfabetizadora em seu trabalho em sala de aula e acabou ganhando uma repercussão maior do que ela poderia imaginar.

Usando uma técnica que ficou conhecida como “alfabetização por imagem” ou “método sintético silábico”, a cartilha partia da associação de letras a uma imagem, por exemplo, a letra A é escrita no corpo de uma abelha, a B, na barriga de um bebê e assim por diante. Primeiro o aluno aprendia a letra, depois formava sílabas, aprendendo as famílias silábicas, em seguida, passava a ler palavras e, por último, frases isoladas. O trabalho era marcado pela repetição e memorização, até que a criança aprendesse a ler.

Visto como muito eficiente, o livro fez muito sucesso por décadas, até que, com o avanço dos estudos na área de psicolinguística, sociolinguística e aquisição da escrita, ele foi caindo em desuso. Os novos estudos passaram a tratar a alfabetização como um processo que deveria ir além da decodificação de letras e sílabas.

Trabalhos como os de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky se propuseram a analisar como as crianças aprendem e quais são as hipóteses que elas fazem antes de se apropriarem da escrita alfabética. A abordagem adotada pelas autoras passou a ser chamada de construtivismo e se tornou a principal referência teórica nas discussões sobre alfabetização.

A partir dessas reflexões, o método utilizado na cartilha “Caminho suave” foi dando lugar a um trabalho voltado para o uso de textos reais em sala de aula, buscando propiciar o contato da criança com gêneros que circulavam socialmente de modo a criar uma relação com a leitura que fosse além da decodificação.

Essa mudança de perspectiva fez com que a cartilha fosse substituída por outros materiais e, em 1996, a “Caminho Suave” foi excluída do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD).

Os estudiosos da área reconhecem o papel que a obra de Branca Alves teve na alfabetização em nosso país, especialmente em um momento em que a noção de ser alfabetizado estava associada ao fato de ser capaz de escrever o próprio nome. Mas explicam a substituição desse material por outros porque o trabalho dessa cartilha estava voltado apenas ao aprendizado da codificação e decodificação e não à descoberta do mundo da literatura, dos jornais, da leitura efetivamente em uso. Uma leitura que vai além da decifração do código e que permite a apropriação dos textos que circulam socialmente.

Em sua obra, Branca Alves de Lima juntou princípios que norteavam os dois métodos de leitura que circulavam naquela época: o sintético, que partia de estruturas pequenas para chegar às grandes, ou seja, primeiro ensinava as letras, depois as sílabas e, por fim, a juntá-las e formar palavras; e o analítico, que partia da leitura das palavras e frases, para depois dividi-las em sílabas e letras. Na “Caminho Suave”, havia uma frase que introduzia a palavra e a família silábica, sempre a partir de um vocabulário controlado que explorasse a letra a ser estudada.

Embora as teorias acerca da alfabetização tenham apontado outros caminhos, a cartilha continua sendo editada e ainda é utilizada principalmente por quem acha que os métodos de alfabetização utilizados não são suficientes para que as crianças aprendam a ler e a escrever.

Branca Alves de Lima morreu em 2001, aos 91 anos de idade, porém deixou uma obra que é lembrada por muitas gerações, que tiveram o seu primeiro contato com o mundo da escrita através de sua cartilha.

Referências:


FERREIRA, N. S. de A.; GOULART, I. do C. V. “Devo muito à Caminho Suave”: lembranças da cartilha. Revista Brasileira de Alfabetização, Vitória, v. 1, n. 7, p. 162-182, jan./jun. 2018.

Peres, E. T., Vahl, M. M., & Thie, V. G. (2016). Aspectos editoriais da cartilha “Caminho Suave" e a participação da Editora Caminho Suave Limitada em programas federais do livro didático. Revista Brasileira De História Da Educação16(1[40]), 335 – 372. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/rbhe/article/view/40776

Cunha de Araújo, G., & dos Santos, S. M. . (2008). A cartilha Caminho S

uave: história, memória e iconografia. Fênix – Revista De História E Estudos Culturais5(2), 1-14. Disponível em: https://www.revistafenix.pro.br/revistafenix/article/view/39

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