O caso Marquinhos Velasco e os Pit Boys de Satanás: o crime que acendeu a discussão sobre crime e impunidade entre os jovens da classe média

“Até então, todos acreditavam que só adolescentes da periferia cometiam atos infracionais. Estávamos errados”.  Essa frase foi dita pela promotora da Vara da Infância e da Juventude de Brasília, ao ser entrevistada sobre o caso Marquinhos Velasco.

Em 1993, o país se adaptava à nova Constituição brasileira. Em uma tarde de 10 de agosto daquele ano, o adolescente de 16 anos, Marquinhos Velasco, um estudante fanático por futebol, foi surpreendido por 10 rapazes, na quadra 316, na Asa Norte de Brasília. O adolescente conversava com amigos de sua rua, quando o grupo se aproximou. Um dos membros disse que ele havia olhado para a namorada de um deles. Na época, havia uma epidemia de jovens de classe média que saíam pelas ruas para arrumar confusão e usar práticas de artes marciais para espancar pessoas. Esse tipo de criminoso ficou conhecido como “Pit Boy”.

Os jovens que se aproximaram de Velasco naquele dia 10 à tarde formavam uma gangue cujo nome era “Falange Satânica”. O grupo era composto por jovens da classe média alta de Brasília. Todos matriculados em academias de Jiu Jitsu e outras lutas. Em uma clara subversão da filosofia dessas práticas, usaram os golpes em Marquinhos, quebrando seus ossos e causando traumatismo craniano.

O líder do grupo, Gengis Keyne, era filho de delegado e, após bater no garoto, recebeu do pai a orientação de se entregar e responder por agressão. Porém, após confessar, Keyne descobriu que Marquinhos havia falecido. Então, ele e os outros 9 participantes foram indiciados por homicídio doloso. O caso teve repercussão nacional, pois a imprensa já cobria, timidamente, a ação dos Pit Boys. Após o crime contra Marquinhos, o tom da discussão foi amplamente aumentado e a violência na classe média virou pauta nacional. Com o nascimento da Constituição cidadã de 1988, a pauta sobre igualdade de tratamento perante a justiça também passou a reinar nos debates da opinião pública. Como um pobre e negro era tratado como bandido ao furtar uma carteira e um jovem da classe média era tido apenas como uma pessoa com comportamento desviante?

Gengis foi condenado a 28 anos de prisão, mas não cumpriu nem 5 deles. Após sair do cárcere, foi preso mais duas vezes. A primeira por passar um cheque falso e a segunda por tráfico de drogas.

A mãe de Velasco passou a militar contra a violência e fundou uma associação que atende vítimas de ataques violentos.

Brasília seria palco de outros crimes envolvendo bandidos da classe média. Três anos depois, o indígena Galdino, da etnia Pataxó, seria queimado vivo em um ponto de ônibus por jovens da classe média, que alegaram, na frente da autoridade policial, que queriam apenas fazer uma brincadeira. A imprensa nunca usou o termo bandido para os autores do caso Marquinhos e do assassinato de Galdino, mas nós usaremos: “Bandidos”, é assim que eles devem ser chamados.

Referências:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/8/25/cotidiano/2.html

https://jornaldebrasilia.com.br/blogs-e-colunas/brasilia-assombrada/a-gangue-assassina-da-asa-norte/

https://globoplay.globo.com/v/911345/

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