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Cruz e Sousa: uma voz poética contra a discriminação racial

João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, filho de escravizados alforriados, seu sobrenome e o acesso a uma educação de qualidade lhe foram dados pelo antigo senhor de seus pais, o marechal Guilherme Xavier e Sousa, o que lhe permitiu aprender francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu matemática e ciências naturais.

Com a morte de seu protetor, em 1870, passou a enfrentar dificuldades financeiras e a sentir mais de perto o peso do preconceito racial, chegando a ser impedido de assumir um cargo de promotor público da cidade de Laguna, pelo simples fato de ser negro.

Em 1893, casou-se com Gavita Rosa Gonçalves, também descendente de escravizados africanos. Desta união nasceram quatro filhos, porém todos morreram vítimas de tuberculose. Sua esposa sofreu distúrbios mentais, fazendo com que a loucura se tornasse um tema presente em suas obras, levando-o a produzir poemas consagrados como “O assinalado”, no qual afirma: ‘Tu és o louco da imortal loucura, / o louco da loucura mais suprema. / a terra é sempre a tua negra algema, / prende-te nela extrema Desventura”.

Conhecido como “Cisne Negro” ou “Dante Negro”, Cruz e Sousa foi um dos precursores do Simbolismo no Brasil e o maior poeta desse movimento literário. Apesar disso, em função do preconceito racial e do seu engajamento na luta abolicionista, não teve sua obra reconhecida durante a sua vida, enfrentando sérias dificuldades financeiras e muitos problemas decorrentes da doença dos filhos e da loucura da esposa. Morreu de tuberculose aos 36 anos, na cidade de Sítio, Minas Gerais, e sua situação financeira era tão precária que seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro em um carro usado para o transporte de cavalos.

Hoje, Cruz e Sousa é reconhecido como um dos grandes nomes da poesia simbolista, tendo sua obra colocada ao lado de grandes poetas franceses como Baudelaire, Mallarmé e Paul Verlaine. Ao longo de sua vida, porém, o preconceito racial serviu como um grande obstáculo para o seu sucesso e refletiu nos temas abordados em sua obra.

Produzindo uma poesia marcada por uma intensa profundidade filosófica e por uma profunda angústia metafísica, o poeta tirou de sua experiência pessoal os elementos para compor seus poemas, expressando uma forte preocupação social, através da fusão da dor do homem negro com a dor humana universal, o que dá aos seus poemas um tom de angústia, pessimismo e muita tristeza. Através de obras como “Emparedado”, Cruz e Sousa mostrou sua resistência diante de uma sociedade que o discriminava e o oprimia, que o tornava um “emparedado”, mesmo sem nunca ter sido preso pelas correntes da escravidão, levando-o a questionar: “Mas, que importa tudo isso?! Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade de dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos e gritos? Qual a dos meus desejos e febres?”. Sua cor e suas origens o impediram de alcançar em vida o sucesso que tanto almejava, seu talento, no entanto, permitiu que sua poesia entrasse para o rol dos grandes textos simbolistas já produzidos, colocando o nome de Cruz e Sousa na lista dos maiores poetas brasileiros.

Referências:

Pires, Antônio Donizeti. “Imagem e epifania nos poemas em prosa de Cruz e Sousa”. Texto Poético, v. 14, n. 1, p. 84-103, 2013. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/124944>. Acesso em: 25/01/2020. 

REIS, Cristiano Lima de Araújo. “O simbolismo de Cruz e Sousa: negritude, dor e satanismo”. Dissertação de Mestrado. São Paulo: PUC-SP, 2009.

BASTIDE, Roger. “O lugar de Cruz e Sousa no Simbolismo”. Florianópolis: Imprensa Oficial do Estado, 1943. 

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