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Dos banhos públicos ao gozo no cinema: um percurso pela história da pornografia

A indústria pornográfica movimenta milhões, gera muitas polêmicas e é consumida diariamente por milhares de pessoas ao redor do mundo. Ao longo da história, a relação com o sexo passou por uma série de transformações e até hoje essa relação depende de fatores sociais, culturais e religiosos, sendo encarada como um tabu por muita gente.

O termo pornográfico vem do grego “pornographos” e significa, em tradução literal, “escrita sobre prostitutas”. O primeiro escritor a empregá-lo foi Luciano, um autor grego que viveu em 125 d.C. Em sua obra “Diálogos das cortesãs”, ele descreve quinze diálogos que revelam o cotidiano de cortesãs daquela época. Com o passar do tempo, o vocábulo assumiu novos sentidos, sendo registradas no dicionário Houaiss cinco acepções para o termo. Entre elas, “característica do que fere o pudor (numa publicação, num filme etc.); obscenidade, indecência, licenciosidade”.

De acordo com o historiador Sarane Alexandrian, com o passar do tempo, a sociedade passou a qualificar como pornográfico tudo o que se referia ao sexo sem amor. Atualmente, o termo faz referência ao que é obsceno. Conforme Michel Foucault, “o que é próprio das sociedades modernas não é terem condenado o sexo a permanecer na obscuridade, mas sim o terem-se devotado a falar sempre dele, valorizando-o como o segredo”. Nem sempre discutido de forma aberta, tratado como algo proibido por alguns grupos de pessoas, o sexo movimenta uma imensa indústria pornográfica. Sites, vídeos, sex shops, literatura, revistas, podcasts, redes sociais movimentam esse mercado e tornam a pornografia um enorme filão a ser explorado.

Mas como se deu esse processo para chegarmos à multiplicidade que temos hoje no que se refere a sexo, erotismo e pornografia? Ao observarmos historicamente a relação do homem com o sexo, a nudez e o erotismo, percebemos como ela foi se alterando conforme os costumes de cada época. Há cerca de 2.500 anos, os atenienses exibiam pelas ruas estátuas com corpos nus. Cenas eróticas eram estampadas em vasos e peças fálicas eram carregadas em procissões, que terminavam com festas em louvor ao deus Dionísio.

Concursos que avaliavam as nádegas das mulheres eram comuns e cenas picantes eram apresentadas em peças de teatro. Em “Lisístrata”, de Aristófanes, por exemplo, as mulheres encabeçam uma guerra de sexo para que a Guerra do Peloponeso chegue ao fim.

A Vênus de Willendorf é o mais antigo objeto encontrado com uma representação de nu. A peça datada de 30.000 a.C. traz uma mulher de formas salientes, remetendo à fertilidade.

Entre os romanos eram comuns as festas de sexo em banhos públicos. Em suas casas, era possível encontrar esculturas eróticas e o pênis ereto era considerado um símbolo de sorte. Textos pornográficos foram encontrados no templo de Príapo, em Roma. Nos muros de Pompeia, arqueólogos localizaram imagens de atos sexuais e frases de caráter obsceno.

Vivendo na segunda metade do século I a. C e nos primeiros anos da nova era, Ovídio produziu a sua obra “A arte de amar”, na qual defendeu que o prazer sexual entre um homem e uma mulher deveria ser mútuo e que ambos deveriam gozar da liberdade. O livro apresenta uma espécie de guia sexual para o romano, mostrando técnicas para alcançar o prazer.

No século II d.C., uma das obras sexuais mais conhecidas veio a público. Compilada por Mallanaga Vatsyayana, o “Kama Sutra” faz muito sucesso até hoje e traz mais de 500 posições sexuais. Para o autor indiano, o sexo era uma criação divina que, portanto, deveria ser venerado e praticado.

Durante a Idade Média, essa liberdade sexual começa a ser reprimida. A Igreja Católica passa a falar sobre o pecado da luxúria, o prazer carnal passa a ser tratado como algo que afasta as pessoas do plano divino.

Com a Inquisição, o sexo e a nudez passaram a ser ainda mais reprimidos. O corpo deveria ser coberto e a prevaricação poderia ser condenada com o exílio ou com a fogueira.

Em 1349, Giovanni Boccaccio publicou “Decameron” e passou a ser perseguido pela Igreja pelas cenas sexuais que descreveu nas histórias narradas na obra.

A partir do Renascimento, o corpo volta a ser mostrado nas artes, o que permite a Sandro Boticcelli pintar “O nascimento de Vênus”. Com a Reforma Religiosa e Contrarreforma, no entanto, a repressão sexual ganha espaço novamente e será apenas no século XVIII, na França, que o moralismo religioso passará a ser combatido com o surgimento de organizações secretas como a “Sociedade para a promoção do vício”. Nesses locais, textos eróticos eram lidos e orgias eram colocadas em prática. Nesse contexto, vai surgir a obra do Marquês de Sade, um dos maiores nomes da literatura pornográfica. O termo sadismo é resultado das práticas sexuais violentas que ele praticava nesses clubes secretos.

Mas, foi a partir da segunda metade do século XIX, que a pornografia foi ganhando os contornos que conhecemos hoje. A invenção da fotografia e das máquinas de impressão permitiram um barateamento da produção em série. Assim, fotos de modelos nuas e livros ilustrados passaram a ser vendidos. As histórias eróticas foram conquistando o público e os “romances para homens” passaram a fazer muito sucesso, inclusive no Brasil.

A pornografia chegaria ao seu auge, porém, algum tempo depois, com a invenção do cinema. A partir de 1896, surgem filminhos com strippers tirando a roupa e, logo depois, cenas de sexo explícito passam a ser filmadas. Assim, nascem os “filmes para rapazes” (stags films), gravações de 7 a 15 minutos que traziam cenas reais de sexo oral, lesbianismo e ménage à trois.

A partir de 1930, começam a surgir leis que passam a censurar esse tipo de produção. Sob a alegação de que esses filmes violavam a moral, eles passam a ser censurados e o sexo explícito vai dando lugar a cenas que se limitavam à insinuação. Ao invés de tirarem a roupa inteira, as dançarinas tiravam apenas uma parte e deixavam o resto para a imaginação do expectador.

Cenas de sexo explícito eram vistas apenas em prostíbulos e cinemas clandestinos, muitas delas, gravadas na Suécia, onde a pornografia era permitida.

Nos anos 1960, a liberdade sexual se torna uma bandeira importante. A fundação da Playboy em 1953, já antecipava o movimento que tomava as ruas nos anos 60. Desse modo, o sexo explícito retorna a filmes exibidos em cinemas de qualidade questionável. Em 1972, a exibição de “Garganta Profunda” no circuito comercial marca uma nova era desse tipo de produção. Até hoje o filme gera muitas polêmicas em torno dos abusos que Linda Lovelace sofrera durante as filmagens. É partir desse momento, porém, a que indústria pornográfica se firma de vez e transforma-se em um negócio milionário.

A invenção do videocassete se torna um marco dessa indústria, permitindo que os fãs de pornografia gozem desse prazer na privacidade do lar. A produção em larga escala de vídeos pornográficos passa a movimentar intensamente o mercado erótico. Depois do VHS, surgiram os DVDs e canais de TV a cabo, aumentando ainda mais as possibilidades de acesso aos vídeos pornográficos e, consequentemente, ao faturamento dessa indústria.

Com o advento da internet, o acesso à pornografia se tornou ainda mais fácil. Sites pornográficos foram se multiplicando e ganhando milhares de acesso.  O Xvideos, um dos mais famosos do gênero, tem 4,4 bilhões de visualizações de página por mês. O site Pornhub registrou no último ano 42 bilhões de acessos, cerca de 115 milhões ao dia. 

No mundo online, as possibilidades de acesso ao pornô são vastíssimas, sites, podcasts, redes sociais, vídeos caseiros, nudes, camgirls, cybersexo e uma infinidade de outras formas de acesso a conteúdo erótico movimenta a internet.

Junto com esse campo vastíssimo, surgem os problemas como a pornografia infantil, a exploração sexual e a pornografia de vingança, trazendo traumas enormes para as vítimas.

A discussão em torno do impacto da pornografia excessiva principalmente nos jovens é outro tema bastante frequente. Especialistas analisam o quanto o consumo exagerado de conteúdos pornográficos pode ser nocivo à sexualidade dos homens e, principalmente das mulheres. Ao construir a sua sexualidade em cima de estereótipos e padrões que não existem na vida real, muitos jovens acabam se frustrando na prática sexual, encontrando prazer apenas na pornografia.

Os debates em torno da questão são diversos, as possibilidades de acesso à pornografia são cada vez mais vastas, muitas críticas são feitas à indústria pornográfica, mas é fato que ela segue firme e a cada dia o surge uma nova forma de exploração do pornô. Escancarada ou velada, a busca pelo prazer sexual sempre esteve presente na história da humanidade.

Referências:

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. I: a vontade de saber, 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993.

MAINGUENEAU, Dominique. O discurso pornográfico. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.

HUNT, Lynn. A invenção da pornografia: obscenidades e as origens da modernidade 1500-1800. Tradução: Carlos Szlak. São Paulo: Hedra, 1999.  

https://super.abril.com.br/historia/a-indiscreta-historia-da-pornografia/

Imagem de abertura: “Papiro Erótico de Turim”, produzido em 1292-1075 a.C.

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