Margarida Alves: a paraibana que enfrentou donos de terra e deixou um dos maiores legados de luta pela Reforma Agrária

Margarida Maria Alves era a caçula de uma família de nove filhos. Ela passou a vida vivendo na zona rural. Aos 11 anos, já trabalhava no campo com o pai. Dessa luta diária com a enxada na mão, nasceu seu desejo de lutar por melhores condições para os trabalhadores rurais.

Quando sua família foi expulsa da terra na qual viveu até os 22 anos de idade, Margarida foi morar na periferia de Alagoa Grande, na Paraíba. Em 1971, ela assumiu o comando do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, se tornando a primeira mulher a liderar um sindicato desse tipo.

À frente do sindicato, ela enfrentou fazendeiros e donos de engenhos de cana-de-açúcar, o que despertou a fúria de quem tinha poder na região e colocou a sua vida em risco.

Margarida defendia direitos básicos do trabalhador rural, como carteira assinada, férias, 13º salário e jornada de oito horas de trabalho. Acostumados à exploração dos trabalhadores, usineiros e fazendeiros a viam como inimiga e isso custou-lhe a sua vida.

No início da noite de 12 de agosto de 1983, bateram à porta da casa da sindicalista. Ela só teve tempo de confirmar seu nome, quando seu rosto foi atingido por um tiro de espingarda calibre 12.

Morta por um pistoleiro de aluguel, contratado por proprietários de terra da região, Margarida perdeu a vida por defender direitos básicos dos trabalhadores rurais. Ela já vinha sendo ameaçada há meses, mas dizia que não fugiria da luta, que era melhor “morrer na luta do que morrer de fome”.

O crime teve grande repercussão e chegou a ser denunciado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Três pessoas foram denunciadas, mas ninguém foi efetivamente punido. Até hoje nenhum dos acusados foi condenado pela morte de Margarida Alves.

A casa onde Margarida foi executada foi transformada em um museu. Em sua fechada, letras grandes lembram o crime: “Aqui foi assassinada em 12/08/1983 a líder sindical Margarida Maria Alves.” Dentro do imóvel uma das paredes traz a frase que ela repetia frequentemente: “da luta eu não fujo”.

Além do museu em sua homenagem, a líder sindical se tornou símbolo da Marcha das Margaridas, um movimento organizado por trabalhadoras rurais que lutam pelos direitos das mulheres e dos homens do campo.

A primeira marcha ocorreu em 2000 e contou com 20 mil mulheres, desde então, o movimento tem crescido e a reinvindicação pelo direito à posse da terra, saúde, educação e melhores condições de trabalho mobiliza mulheres de várias regiões do Brasil.

A voz das mulheres camponesas ecoa por diferentes localidades. A cada ano, um mote é escolhido para a marcha e um conjunto de propostas é apresentado, sempre visando a garantia de direitos fundamentais dos trabalhadores rurais.

Margarida Alves perdeu a vida por lutar em defesa dos homens e mulheres do campo, movendo processos na Justiça do Trabalho e fazendo a sua voz ser ouvida em defesa daqueles que eram explorados por grandes latifundiários. Do seu sangue derramado no chão, muitas margaridas brotaram e o movimento ganhou projeção nacional, se tornando um importante espaço de mobilização dessa parcela de trabalhadores e trabalhadoras tão explorados em nosso país.

Referências:

https://online.unisc.br/seer/index.php/direito/article/viewFile/11701/7822

https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2019/11/filho-da-agricultora-e-lider-sindical-margarida-maria-alves-recebera-i.html

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/08/saiba-quem-foi-margarida-alves-sindicalista-que-da-nome-a-marcha-camponesa.shtml

http://need.unemat.br/4_forum/artigos/irani.pdf

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