A morte dos Juma: em 1964, o povo, pela pólvora; em 2021, o último guerreiro, pela Covid

A população indígena tem sido exterminada no Brasil desde que o primeiro colonizador aqui pisou. De lá para cá, povos inteiros foram dizimados e um mar de sangue indígena molhou o nosso chão, fazendo com que a expressão genocídio dos povos indígenas se tornasse frequente ao tratar dessa questão.

De acordo com dados da FUNAI, mais de 70% da população indígena brasileira foi morta. As causas dessas mortes são variadas, mas quase sempre passam pela violência ou por doenças trazidas pelo homem branco.

No dia 17 de fevereiro de 2021, mais uma morte entrou para a história de extermínio indígena que marca o país. Aruká Juma, último homem do povo Juma, morreu em decorrência de complicações provocadas pelo coronavírus. Ele tinha entre 86 e 90 anos e guardava consigo todos os saberes ancestrais de seu povo, além de ser um dos sobreviventes de um massacre ocorrido nos anos de 1960, que visava dizimar o que havia sobrado da etnia Juma.

A aldeia onde Aruká vivia fica localizada na Terra Indígena Juma, ao sul do Estado do Amazonas. Em 1964, comerciantes e seringueiros da região contrataram um grupo de extermínio para matar os indígenas. Segundo relatos da época, eles deveriam atirar nos Jumas “como se atirassem em macacos”. Dos 60 habitantes do local, sobraram apenas sete. Os corpos das vítimas foram deixados para serem comidos pelos animais e seringueiros da região se gabaram de mais um extermínio de povos indígenas. Ninguém foi punido. Aruká, porém sobreviveu e sempre fez questão de lembrar do último massacre que exterminou o seu povo.

Aruká tinha o título de “amoé”, que significa avô em tupi guarani, o que indicava o respeito que ele tinha entre os membros de seu grupo, sendo visto como o guardião das tradições de caça e artesanato Juma e representando a ancestralidade de homens e mulheres que vêm sendo exterminados ao longo de gerações.

Os Juma pertencem ao grupo linguístico Kagwahiva. No final dos anos noventa, eles foram retirados de suas terras e levados para os domínios do povo Uru-eu-wau-wau. Nesse local, as filhas de Aruká se casaram com homens desse outro povo, fazendo com que os dois grupos se miscigenassem.   

A saída de sua aldeia trouxe um enorme impacto para os Juma, o último casal de anciãos da tribo morreu logo depois da partida para esse novo local e Aruká enfrentou uma forte depressão, sentindo-se isolado em meio a um grupo diferente do seu. Entretanto, ele seguiu lutando e, após uma longa batalha, conseguiu retornar para o seu local de origem. Foi criada uma reserva indígena de 38 mil hectares e ele, finalmente, pôde voltar para a sua terra. Embora ainda hoje muita gente conteste a criação de um local protegido para um número tão pequeno de habitantes, foi uma grande vitória para Aruká poder recuperar a terra onde seu povo viveu e onde os seus mortos estavam enterrados.

Na reserva onde seus ancestrais viveram por séculos, Aruká Juma foi enterrado. De seu povo restou apenas as suas filhas e seus netos, mas como elas se casaram com homens de outro grupo indígena, a possibilidade de continuidade desse grupo indígena acaba de ser extinta, pois quem transmite a etnia é o pai.

Aruká e suas três filhas, em outubro de 2019

Suas filhas são as últimas da linhagem Juma. Borehá, a primogênita, é a nova cacique do grupo. Um grupo que foi sendo exterminado durante séculos, vítima de massacres e doenças, e que agora sucumbe por mais uma doença trazida pelo homem branco.

No início do século XX, o povo Juma contava com cerca de 15 mil pessoas, um século depois, chora a morte de seu último guerreiro. Aruká era o símbolo da resistência de um povo que teve a sua história marcada pela morte. A morte trazida pelas armas de fogo dos seringueiros, pelas doenças transmitidas pelos homens que invadiam as suas terras, pela tristeza de deixar para trás a sua aldeia e todas as tradições de seu povo, enfrentando a morte em vida ao se ver distante da terra onde nasceu.

Aruká Juma, no entanto, resistiu e ensinou aos seus descendentes a resistirem também. Assim, mesmo que a tradição de seu povo seja patrilinear, suas filhas e netos decidiram manter viva a história de seu povo. Eles se autodeterminaram Juma e seguirão resistindo para preservar as tradições de seu povo e o espírito guerreiro de Aruká Juma.

Referências:

https://brasil.elpais.com/brasil/2021-02-19/o-ultimo-anciao-juma-morre-de-covid-19-e-leva-para-o-tumulo-a-memoria-de-um-povo-aniquilado-no-brasil.html

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56132019

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/606862-a-devastadora-e-irreparavel-morte-de-aruka-juma

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