Um percurso pela Semana de Arte Moderna e pelo Modernismo brasileiro

Ao ser questionado se valeria a pena comemorar os trintas anos da Semana de Arte Moderna, Manuel Bandeira disse que era melhor esperar o centenário. Se em 2022 ainda se lembrassem disso, então era sinal de que valeria a comemoração.

O ano de 2022 chegou e a Semana tem ocupado bastante espaço na academia, na imprensa e nas redes sociais. Eventos estão sendo organizados, diversos livros estão sendo lançados e muitos debates têm surgido acerca da real relevância do evento realizado no Teatro Municipal de São Paulo e considerado o marco do Modernismo brasileiro.

Apresentada na escola como o evento que deu início à 1ª fase do Modernismo, a Semana de Arte Moderna faz parte de nosso patrimônio cultural e marcou a nossa história. É importante, entretanto, lembrar que os idealizadores do evento não acordaram em uma linda manhã de sol e decidiram criar o Modernismo. Antes das apresentações de fevereiro de 1922, houve um longo e complexo movimento de renovação da arte e da literatura brasileira, com uma série de eventos que antecederam aqueles três dias de fevereiro. Além disso, o contexto histórico da época foi determinante para o surgimento de novas propostas artísticas.

Realizada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna contou com apresentações musicais, exposições de arte, declamação de poemas, apresentações de dança e conferências, expressando o resultado de um processo que já vinha sendo construído há alguns anos e por artistas de diferentes regiões do Brasil.

Para entender esse processo, é importante analisarmos as primeiras décadas do século XX. Nessa época, a riqueza gerada pelo café impulsionou a industrialização de São Paulo, tornando-o um dos estados mais ricos e influentes do país.

No Rio de Janeiro, na época capital da República, o glamour da Belle Époque dava o tom e as elites circulavam com seus trajes luxuosos por cafés, livrarias, teatros e festas.

Do ponto de vista literário, o Parnasianismo era o movimento mais apreciado. Embora circulassem poemas simbolistas e obras de autores como Euclides da Cunha e Lima Barreto, eram os poemas de Olavo Bilac que encantavam os leitores da época.

Aos poucos, porém, as influências das vanguardas europeias começaram a chegar a São Paulo e uma nova visão de arte foi se constituindo.

Em 1917, a pintora Anita Malfatti voltou dos Estados Unidos e fez uma exposição de obras influenciadas pelas vanguardas. Sua obra foi duramente criticada por Monteiro Lobato, que publicou o artigo “Paranoia ou mistificação?” no jornal “O Estado de S. Paulo”, no qual fez uma distinção entre a arte pura e a arte moldada por teorias efêmeras. Para ele, essa arte seria semelhante aos desenhos que estampam as paredes de manicômios, com a diferença de que não apresentam nenhuma sinceridade ou lógica, “sendo mistificação pura”.

A crítica de Monteiro Lobato fez com que Mário de Andrade publicasse uma resposta no “Jornal do Commercio”, na qual começou a apresentar as principais ideias que norteavam a implantação do modernismo no Brasil. Para Mário de Andrade, a arte não poderia se limitar a uma convenção limitadora, era preciso dar liberdade à criação.

“A boba”, de Anita Malfatti.

Com essa polêmica, São Paulo entrou definitivamente no cenário modernista e o caminho para a Semana de Arte Moderna foi sendo construído. O ano de 1922 mostrou-se perfeito para os modernistas, já que era o ano em que se comemorava o centenário da Independência do país. Desse modo, um evento que apresentasse a um grande público as novas tendências estéticas seria perfeito para marcar esse processo.

As novas posturas estéticas já vinham sendo discutidas há anos, o que faltava era um grande evento que ampliasse a visibilidade delas. Assim, um grupo formado por Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Di Cavalcanti e Mário de Andrade passou a organizar conferências, exposições e concertos para divulgar as novas ideias. Algum tempo depois, Sérgio Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos, Manuel Bandeira e Graça Aranha também aderiram ao evento. Manuel Bandeira não compareceu, mas enviou o poema “Os sapos” que causou um enorme alvoroço na plateia quando foi lido por Ronald de Carvalho.

Na noite do dia 13 de fevereiro de 1922, Graça Aranha fez a conferência de abertura da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, que foi alugado por 847 mil-réis para a realização do evento.

A elite paulistana compareceu em peso e reagiu com vaias e espanto diante daquilo que viu. Na segunda noite, diante das muitas vaias, Menotti del Picchia afirmou que os conservadores pretendiam enforcá-lo com os “finos assobios de suas vaias”.

No terceiro dia de apresentações, Villa-Lobos se apresentou com traje de gala e chinelos, pois estava com um calo que o impedira de calçar um sapato. A plateia achou que isso era uma excentricidade futurista e se sentiu ofendida com a atitude do maestro.

Os jornais noticiaram toda a agitação que marcou o evento e os modernistas conseguiram o que queriam: alcançaram a visibilidade necessária para consolidar a nova estética.

A partir da Semana de Arte Moderna, estabeleceu-se o início da 1ª fase do Modernismo no Brasil. Segundo Menotti del Picchia, o objetivo desse grupo era promover um movimento libertador, que fosse capaz de despertar a verdadeira brasilidade. Assim, era preciso romper com os valores do passado e criar uma nova arte.

Na literatura, a liberdade de criação, o abandono da forma e o uso de uma linguagem brasileira, deram o tom desse primeiro momento do modernismo. Uma série de revistas e manifestos foram produzidos para divulgar essas ideias.

Contando com o apoio econômico e social da elite, o movimento foi cada vez mais se apropriando das ideias das vanguardas e criando uma nova arte brasileira, o público, no entanto, demorou bastante para assimilar essas novas ideias.

Em 1928, inspirado pela tela “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade lançou o “Manifesto antropófago”, segundo o qual era preciso digerir o que interessasse na arte europeia e eliminar aquilo que não interessasse aos símbolos brasileiros.

“Abaporu”, de Tarsila do Amaral

Na literatura, Oswald de Andrade produziu uma obra de caráter transgressor, sempre interessado em quebrar expectativas e criar polêmica. Ele explorou o humor, a ironia e olhou criticamente para o Brasil, criticando o seu passado colonial e exaltando uma nova visão de nacionalidade. Mário de Andrade defendeu em sua obra a descoberta do Brasil profundo, voltando-se para as nossas raízes, estudando o nosso folclore e refletindo sobre a pátria e a identidade do brasileiro. Manuel Bandeira encontrou a poesia “tanto nos amores, quanto nos chinelos” e extraiu o lirismo do cotidiano, encontrando no fazer poético, o espaço para refletir sobre a morte e a doença.

Na pintura, Anita Malfatti, Lasar Segall, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti partiram de movimentos como o Cubismo, o Expressionismo e o Surrealismo, mas deram uma identidade brasileira às suas obras. Na escultura, Victor Brecheret explorou a dramaticidade e o primitivismo. Na música, Heitor Villa-Lobos fundiu elementos da música popular com a música erudita, explorando ritmos folclóricos. 

Além desses artistas, tivemos uma imensa multiplicidade de manifestações modernistas pelo Brasil. É importante dizer que o Modernismo não se restringiu a São Paulo. A Semana de Arte Moderna foi um fenômeno urbano e paulista, fruto do processo de industrialização, de migração e urbanização da cidade, que contava com o dinheiro do café e com uma elite de intelectuais disposta a pagar o evento. O Modernismo, entretanto, já vinha sendo construído por todo o Brasil e se espalhou por diversos estados após a Semana. O evento paulista deixou como legado esse processo de pensar o Brasil e enxergá-lo com olhos atuais.

Após 1922, um longo percurso artístico-literário foi trilhado em nosso país. O Modernismo deixou de provocar vaias e relinchos e passou a ser aceito pelo público, novas gerações de artistas foram surgindo e a arte brasileira seguiu novos rumos, explorando temáticas de caráter mais social. Todo esse percurso, porém, teve influência dos caminhos abertos por esse período inicial que ficou conhecido como fase heroica do modernismo.

Referências:

BOAVENTURA, Maria Eugênia (org.). “22 por 22: a Semana de Arte Moderna vista por seus contemporâneos”. São Paulo: EdUSP, 2008.

BOSI, Alfredo. “História concisa da literatura brasileira”. São Paulo: Cultrix, 1979.

BRITO, Mário da Silva. “História do modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

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