Josué de Castro: o homem mostrou ao mundo o problema da fome no Brasil

Conheça a vida do médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor e ativista brasileiro, Josué de Castro

“A fome é a expressão biológica de males sociológicos”.

Considerado um dos maiores cientistas de seu tempo, Castro foi indicado quatro vezes ao Nobel da Paz e, até hoje, é reconhecido internacionalmente como a maior autoridade nos estudos sobre fome e pobreza no mundo ocidental.

Josué de Castro nasceu em Recife, Pernambuco, em 1908. Filho de uma família de classe média, passou sua infância e adolescência observando os grandes proprietários e os pobres operários e trabalhadores do campo em uma Recife que, na época, ostentava a maior desigualdade social do país. As experiências colhidas ao longo da juventude foram levadas por Josué para o Rio de Janeiro, local para onde migrou para estudar Medicina. Formando-se com apenas 22 anos de idade, voltou para o Recife e atuou como fisiologista. Foi na capital onde nasceu que o médico realizou seu primeiro grande trabalho acadêmico, uma pesquisa de fôlego, na qual mapeava a vida dos operários da capital pernambucana.

Castro passou um ano examinando, colhendo dados e convivendo in locu com os trabalhadores. Ao terminar a pesquisa, o médico defendeu a tese de que os operários passavam fome, pois os salários da época (ainda não existia o salário mínimo) não davam conta de alimentar o trabalhador e sua família, geralmente formada por mais de 5 pessoas. A base alimentar dos operários era farinha, feijão e carne de sol, muito aquém dos nutrientes necessários para manter-se a si e à família em condições básicas de nutrição. Foi a partir dessa tese que, com 25 anos, Josué conseguiu a Livre Docência e foi convidado para dar aulas em universidades italianas.

Suas pesquisas alteravam a verdade estabelecida na época, segundo a qual os países com clima tropical não se desenvolviam por questões ligadas à miscigenação e ao calor. Castro apontava que a falta de desenvolvimento econômico no Brasil era o privilégio para quem já tinha posses e a fome para quem só tinha a força de trabalho.

Após anos difundindo suas pesquisas pelo mundo, Josué volta ao Brasil imbuído de uma missão importantíssima: mapear a fome no país. O pesquisador andou pelos quatro cantos do território nacional e escreveu suas mais importantes obras: “O Mapa da Fome”, “Sete Palmos de Terra e um Caixão”, “A Alimentação Brasileira à Luz da Geografia Humana”.

Naquela época, era consenso para a academia e para o Estado que a maioria dos brasileiros não passava fome, que a fome era fenômeno apenas de regiões abaladas pela seca.

Josué defendia que fome não era apenas não ter o que comer, mas também não ter os nutrientes necessários ou não ingerir as calorias necessárias para uma vida saudável. Através de suas obras e pesquisas, os sindicatos e governos, tanto do Brasil quanto do exterior, tomaram ciência da necessidade da implantação de um salário mínimo e da famosa cesta básica.

Sua postura de denunciar, desmascarando a situação da fome, um país com tanta terra, tanta fertilidade, chamou a atenção de grandes latifundiários, que viram nas ideias de Castro uma ameaça comunista. Quando aconteceu o golpe militar em 1964, Josué, que na época era conselheiro da ONU, teve seus direitos políticos cassados e precisou se exilar na França, onde conquistou vaga de professor em várias universidades daquele país, inclusive na Universidade de Paris. Os franceses souberam aproveitar a mente gigante do médico, que a ditadura cassou. Até o fim de sua vida, seria perseguido pelos generais, pois foi um dos apoiadores da tentativa de reformas de Base de João Goulart, fator primordial para o desencadeamento do Golpe.

Josué faleceu, exilado, em Paris, no dia 24 de setembro de 1973. Seu corpo foi enterrado no cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro.

Ao longo de sua vida, Josué fez carreira política, sendo eleito, antes dos anos 60, como o político mais votado do Nordeste por duas vezes.

A lista de cargos e prêmios que recebeu são de encher os olhos de qualquer pessoa. Dentre eles, os mais importantes foram: quatro indicações para o prêmio Nobel da paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965; Prêmio Franklin D. Roosevelt, da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos; Grande Medalha da Cidade de Paris, em 1953; Oficial da Legião de Honra da França, em 1955; Prêmio Internacional da Paz, do Conselho Mundial da Paz, em 1954.

Referências:

ANDRADE, Manuel Correia de. “Josué de Castro: o homem, o cientista e seu tempo”. Estudos Avançados. vol.11 no.29 São Paulo Jan./Apr. 1997. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141997000100009. Acesso em: 22 /01 /2020.

CASTRO, Josué. “A geografia da fome. A fome no Brasil”. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1946.

CASTRO, Josué. “Sete palmos de terra e um caixão”. 2ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1967.

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