A balada da morte: a triste história do incêndio da boate Kiss

O episódio traumático, que ceifou a vida de muitos jovens, expôs como a negligência com normas de segurança é comum no Brasil e como esse fato pode reverberar em tragédias irreversíveis

Santa Maria é uma cidade do Rio Grande do Sul com cerca de 260 mil habitantes. Nela se localiza a Universidade Federal de Santa Maria, o que faz com que seja um local caracterizado pela grande circulação de jovens universitários. Na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013, essa cidade teve a sua história marcada por uma tragédia que destruiu a vida de muitas famílias e abalou o país inteiro.

Mais de mil pessoas estavam reunidas na Boate Kiss, onde acontecia uma festa chamada “Aglomerados”, na qual jovens universitários de diferentes cursos da UFSM se divertiam e acompanhavam o show de duas bandas. Por volta das 2h30, o grupo Gurizada Fandangueira subiu ao palco. Durante a apresentação, estava programado um show pirotécnico. No entanto, um dos artefatos lançados atingiu a espuma que revestia o teto da boate e provocou uma tragédia sem precedentes.

As tentativas de apagar o fogo fazendo uso de água e extintores foi em vão. Uma fumaça espessa tomou conta do lugar e liberou cianeto – substância tóxica que foi a principal causa das mortes.

Além do desespero provocado pelo incêndio, uma falha de comunicação fez com que, inicialmente, os seguranças não liberassem a saída, pois não sabiam o que estava acontecendo. Outro fator que potencializou a tragédia foi a falta de saída de emergência. Muitos estudantes ficaram presos no banheiro, já que imaginaram que ali haveria uma porta de acesso à rua lateral.

Considerado o terceiro maior incêndio já ocorrido em boates, seu saldo foram 242 mortes, 636 feridos e uma cidade devastada pela dor do luto e pela sensação de impunidade, já que diversas foram as irregularidades que contribuíram para a dimensão da tragédia: superlotação, pirotecnia em ambiente fechado e teto inflamável, falta de saídas de emergência.

A cidade marcada pela agitação dos universitários se viu tomada pelo silêncio, pelas lágrimas e por uma dor profunda. Velórios coletivos, identificação de corpos carbonizados, a luta pela vida em leitos de hospitais, o peso enorme de perder filhos, amigos, irmãos, sobrinhos, netos, lembranças que jamais serão apagadas da memória de quem viveu esses momentos de profunda dor.

Ao entrarem na boate, os bombeiros encontraram um cenário de desolação. Em meio à fumaça preta que se espalhava pelo local, era quase impossível resgatar pessoas ainda com vida. Os celulares que tocavam ininterruptamente davam a dimensão do desespero de pais, mães e familiares que tentavam encontrar notícias de jovens que estavam no local.

Diversos atos em homenagem às vítimas foram realizados, um memorial será construído no local da tragédia, porém, a execução da obra ainda esbarra em questões de orçamento e na demolição do prédio, a qual ainda não foi autorizada, pois o processo judicial não foi concluído.  Até hoje, o que se vê no local são as ruínas do incêndio e um enorme vazio deixado pelo luto que parece não ter fim.

Familiares das vítimas e sobreviventes do incêndio tiveram suas vidas profundamente alteradas. As marcas da tragédia são visíveis na trajetória de cada família. O sofrimento provocado pelas perdas nunca será esquecido e ele acabou sendo o estopim para que outras perdas ainda marcassem a história de muitos familiares das vítimas.

Os traumas provocados por aquela noite fatídica se tornaram pesados demais para alguns familiares. Pelo menos seis pais morreram em decorrência de doenças relacionadas à perda dos filhos. Segundo parentes das vítimas, eles desistiram de viver, consumidos por um imenso vazio e pela sensação de impunidade, fazendo com que não tivessem mais forças para lutar, com que não vissem mais sentido na vida. A depressão, o uso de remédios para dormir e várias tentativas de suicídio se tornaram frequentes na rotina de muitas dessas pessoas.

No dia 16 de dezembro de 2020, foi distribuído para o segundo juizado da 1ª Vara do Júri do Foro Central de Porto Alegre o processo relativo ao incêndio da Boate Kiss. Serão julgados os empresários Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, sócios da Boate, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, e o produtor da banda, Luciano Bonilha Leão. Eles respondem por 242 homicídios consumados e 636 tentativas de homicídio.

Para os sobreviventes e familiares das vítimas, a demora no julgamento dos réus aumenta a sensação de impunidade, o sentimento de que não houve justiça diante da dor irreparável que marca as suas vidas torna o sofrimento ainda mais intenso. As cicatrizes não estão apenas registradas na pele de quem sobreviveu à tragédia, elas marcam a alma, a ferida do trauma permanece aberta. A cidade conhecida pela alegria dos jovens universitários segue marcada pela névoa daquela fumaça que destruiu a vida de tantas famílias e espalhou silêncio, dor e lágrimas por Santa Maria. 

Referências:

https://www.nfpajla.org/pt/arquivos/lugares-de-reunioes-publicas-discotecas/993-el-beso-de-la-muerte

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/01/seis-anos-depois-incendio-na-boate-kiss-acumula-vitimas-entre-os-pais.shtml

https://lume.ufrgs.br/handle/10183/204283

https://periodicos.ufsm.br/ccomunicacao/article/view/35012

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