O caso Dandara: o assassinato transfóbico que explicitou a violência de gênero no país

A vida de Dandara é muito parecida com a de inúmeros brasileiros pobres. Sua trajetória é um misto de pobreza, violência e luta pela sobrevivência em um dos países mais desiguais do mundo.

Registrada com o gênero masculino, Dandara era natural de Fortaleza, capital do Ceará. Nascida no início dos anos 70, ela demorou quase duas décadas para realmente fazer a transição social para o gênero em que nasceu.

Dandara, buscando uma vida melhor, aos 20 anos, parte para a cidade de São Paulo, local em que é aliciada para a prostituição. Lá, na capital paulista, centro econômico do país, a travesti fica durante uma década. Ao voltar para o Ceará, descobre ser portadora do vírus HIV.

Alocada no bairro Bom Jesus, na capital cearense, Dandara passa a ganhar a vida como vendedora de roupas usadas.

No dia 15 de fevereiro de 2017, em meio a uma confusão no bairro, um grito de “pega ladrão” fez com que pessoas que já não gostavam de Dandara e a repeliam por sua condição de gênero, colocassem a culpa do crime em sua conta. Após a confusão, uma sessão de espancamento se inicia. Pelo menos quatro homens torturam a pobre travesti, que já havia sido agredida várias vezes nos meses anteriores. Além dos agressores, moradores observavam e gravavam a terrível cena.

Após uma sessão de espancamento cruel, Dandara recebe uma pedrada na cabeça e um disparo de arma de fogo. Depois de tanta violência, ela cai morta no chão.

Vídeos da ação foram divulgados na internet com orgulho pelos agressores. A todo momento os assassinos gritavam “bicha”, “traveco”, “ladrão”, mostrando, através dessas palavras, um ódio explícito de gênero.

Após a viralização do vídeo, a polícia passa a investigar e prende 12 pessoas. 8 adultos e quatro adolescentes, enquadrados por assassinato por motivos de ódio e intolerância.

Ao final de 2017, 6 réus foram condenados por homicídio qualificado sem chance de defesas para a vítima. Os condenados pegaram pena de 14 a 21 anos em regime fechado. Além das condenações, o advogado da família de Dandara processou o Estado pela demora da polícia em agir no caso. O pedido solicita 1 milhão de reais de indenização em favor da mãe da vítima, já que Dandara era a principal provedora da família.

O caso acendeu a discussão sobre violência de gênero no Brasil. A repercussão do crime trouxe à tona mobilizações e debates sobre a violência e intolerância com a diversidade. O caso se tornou um argumento decisivo para que o STF passasse a abranger a homofobia e transfobia como crimes de intolerância.

Dandara, porém, não está mais viva. Foi mais uma vítima da máquina de matar oprimidos chamada Brasil.

Referências:

http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/03/apos-agressao-dandara-foi-morta-com-tiro-diz-secretario-andre-costa.html

https://www.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2020/02/15/ha-tres-anos–dandara-dos-santos-era-torturada-e-morta-em-rua-de-fortaleza.html

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43648715

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