Uma análise sobre a cachorrinha “Baleia”, uma das personagens mais carismáticas e marcantes da história da literatura brasileira

Construída magistralmente por Graciliano Ramos, Baleia tem a habilidade de deixar o leitor apaixonado e sua trajetória mostra a importância do cão para a cultura e o imaginário do homem do sertão 

Ilustração Rodrigo Rosa / divulgação

Todo leitor certamente tem a sua galeria de grandes personagens da literatura ou se lembra de trechos de obras que o marcaram para sempre em sua história de leitura. Dentre esses grandes personagens, a cachorra Baleia, da obra “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, merece destaque. A trágica história vivida por esse animalzinho e sua família de retirantes é capaz de comover até mesmo os leitores mais duros, a cena de sua morte, magistralmente registrada por Graciliano Ramos é uma das passagens mais tristes e belas já produzidas em nossa literatura. Como não se comover com o sonho de Baleia de ir para um céu cheio de preás?          

“Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes (p. 91)”.  

Baleia do filme “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos – 1963

Ao longo do livro, os personagens vão se animalizando, a ponto de Fabiano dizer com orgulho que é “um bicho” e corrigir-se quando, por um momento, afirma que é “um homem”. É justamente por ser um bicho, “um cabra”, que Fabiano sobrevive ao estado de penúria que marca toda a sua história. Baleia é a personagem mais humana da obra, é a ela que cabe a tarefa de expressar o afeto frequentemente ausente das relações humanas. Ela consola os meninos em suas tristezas, acompanha Fabiano em seu trabalho de vaqueiro, segue a família quando vão a uma festa na cidade, caça preás no mato e garante a possibilidade de que essa família tenha a sua fome saciada ao menos por alguns momentos.


Conforme depoimento do próprio Graciliano Ramos, o livro “Vidas secas” nasceu justamente a partir da história da Baleia. Segundo ele, esse livro originalmente era um conto que mostrava que no fundo todos nós somos como a cachorra Baleia e esperamos nossos preás. 

Baleia do filme “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos – 1963

Tomando como ponto de partida a lembrança de uma cachorra sacrificada no interior de Pernambuco, o autor registra a triste realidade de uma família cuja vida foi marcada pela opressão e pela dor, resta à Baleia, também vítima dessa opressão e dessa dor, manter a humanidade dessas pessoas que diariamente enfrentam as injustiças e os abusos de poder cometidos contra aqueles que nada possuem.

A dramaticidade da morte de Baleia enternece os leitores. Unido a isso, temos o fato de que o sonho da cachorrinha envolve não só a possibilidade de dispor do alimento que tanto lhe faltara em vida, como de estar junto daqueles que sempre estiveram ao seu lado durante sua trajetória de miséria, conferindo à cena uma carga emocional ainda maior e comovendo quem lê as palavras de Graciliano Ramos. Além disso, a morte de Baleia marca também o fato de que novamente sua família terá que deixar o lugar onde vive, agora não mais partindo de mudança, como no início do livro, mas partindo em fuga diante da possibilidade de que a seca venha ainda mais aterradora e a miséria se torne ainda mais intensa.     

Baleia do filme “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos – 1963

Se à Baleia já não restava mais esperança, apenas o sonho em seus momentos finais de vida, a Fabiano e sua família restava partir mais uma vez, já que retirar era a forma de tentar sobreviver, era o caminho para resistir à morte e, quem sabe, encontrar os preás com os quais a Baleia sonhara antes de dar seu último suspiro.          

Referências:

RAMOS, Graciliano. “Vidas secas”. Rio de Janeiro: Record, 2005.

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