Da Candelária ao ônibus 174: a trajetória violenta de Sandro. Vítima da sociedade ou um bandido cruel?

No dia 12 de junho de 2000, às 14 horas e trinta minutos, na altura do Jardim Botânico, local muito conhecido e visitado na capital do Rio de Janeiro, um homem, portando um revólver, sequestra um ônibus da linha 174 e faz seus passageiros reféns.

Sandro ameaça matar refém

Muito rapidamente, a polícia e a imprensa comparecem ao local. Em minutos, aquela situação virou um espetáculo transmitido minuto a minuto pelas câmeras de TV e redações de jornais impressos.

O homem responsável pelo sequestro é Sandro Barbosa o Nascimento. Após uma pesquisa sobre sua identidade, foi revelado como um homem massacrado desde criança pela violência que domina os grandes centros do país. Sua trajetória de vida levantou debates acerca da reprodução da violência na sociedade brasileira e suscitou a discussão sobre as condições de vida que levam uma pessoa a optar ou a ser conduzida ao mundo da violência e criminalidade.

Sandro, nascido em São Gonçalo, em uma pobre comunidade local, viu seu pai abandonar sua mãe ainda bem criança. Um pouco antes dos 12 anos, viu sua genitora ser assassinada na sua frente a facadas, crime cometido por dois homens bêbados que não quiseram pagar a conta do pequeno comércio que ela mantinha na comunidade. Sandro viu a mãe sendo morta e o bebê em seu ventre, irmão do garoto, se mexendo, enquanto a mãe falecia sangrando e com falta de ar.

Sandro e sua família, que brevemente seria desfeita

Após a impactante morte assistida pelo garoto, Sandro vai morar na rua, dentro do coração da capital do Rio de Janeiro, mais especificamente na Candelária, em frente à famosa igreja. Lá, ele passa por um processo de socialização bastante violento, se viciando em drogas, furtando carteiras e morando na rua. O cotidiano violento ia desde o assassinato de amigos e companheiros de rua, à violência sexual praticada por e contra os menores.

Mas a violência na vida do garoto não parava por aí, em 1993, Sandro seria um dos sobreviventes da Chacina da Candelária. Crime cruel, realizado por policiais, que fez oito vítimas fatais. Todos eram amigos de Sandro e ele, pessoalmente, viu alguns deles morrendo.

Chacina da Candelária

Após esse crime, Sandro se insere em um programa social na PUC Rio de Janeiro, onde passa a jogar capoeira. Porém, o vício em cocaína e a necessidade de dinheiro faz com que Sandro abandone o projeto e passe a perambular pelas ruas da cidade, realizando assaltos junto com um amigo.

Nesse período, já com 20 anos de idade, ele era conhecido como “Mancha”, já havia passado pela prisão e centros socioeducativos para menores pelo menos uma dezena de vezes.

Em 12 de junho de 2000, Sandro reaparece para a sociedade em um espetáculo sangrento. Após o uso de cocaína e uma tentativa frustrada de roubo, ele toma um ônibus e inicia um sequestro que duraria até a noite daquele dia. O final seria trágico.

Segundo alguns reféns, Sandro não aparentava ser um homem violento, ele falava de seu passado, se sentia vítima do sistema, que só lhe apresentara violência até aquele momento.

Geisa é carregada pela polícia

Em um misto de ser violento, de bandido cruel com vítima da sociedade, o crime foi se desenrolando até o início da noite. Quando o bandido resolveu sair de dentro do transporte e foi abordado de forma brusca por um policial militar, que segurava uma arma de grosso calibre. A poucos metros de distância, o agente errou o disparo e Sandro descarregou a arma na refém Geisa Firmo Gonçalves, então grávida de 2 meses. Os dois foram mortos ali, na frente de todo mundo. Geisa morreu na hora e Sandro foi asfixiado dentro do camburão da polícia.

O destino do rapaz, que viveu em meio à violência, também foi selado de forma violenta. Sandro escapou da morte pelas mãos da polícia inúmeras vezes em sua trágica vida. No entanto ali, em meio aos olhos do Brasil todo, foi finalmente morto pelos agentes. Em seu funeral só havia uma tia e inúmeros jornalistas. Sandro foi enterrado em uma cova rasa no cemitério do Caju, lugar que sobra para indigentes marcados pela pobreza até depois do falecimento.

Após as ocorrido, inúmeras pesquisas e alguns filmes foram realizados estudando a vida de Sandro e observando como a violência reproduzida ao longo de sua socialização contribuiu para que seus caminhos fossem marcados por crimes, sangue e muita gente morta.

Sandro é levado ao camburão da polícia onde seria morto asfixiado

A história desse rapaz é muito mais complexa do que o simples senso comum que o julga apenas como um bandido cruel ou uma vítima da sociedade. Sandro é a síntese de uma sociedade complexa, desigual, na qual o indivíduo e o coletivo se tensionam no momento de escolher os caminhos do bem e do mal.

É mais uma história bem brasileira!

Referências:

O espetáculo e a vida infame
em Ônibus 174

Carlos de Brito e Mello – 2015

FUHRMANN, Nadia Lucia. O Primado do Reconhecimento sobre a Redistribuição: a origem dos
conflitos sociais a partir da teoria de Axel Honneth. Sociologias [online], Porto Alegre, v.15, n.33,
p.170-203, mai/ago.2013. Disponível em:
http://seer.ufrgs.br/index.php/sociologias/article/view/42436/26831. Acesso em: 01 jun 2014.

PADILHA, J. (diretor). (2002). Ônibus 174 [DVD]. 133 min. Rio de Janeiro: Riofilme.

SAAVEDRA, Giovani A.; SOBOTTKA, Emil A. Introdução à teoria do reconhecimento de Axel
Honneth. Civitas, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 9-18, jan/abr. 2008.

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