A Revolta da vacina: a rebelião contra a imunização coletiva proposta pro Oswaldo Cruz

Durante seis dias, parte da população da cidade do Rio de Janeiro se rebelou contra a vacinação obrigatória. O motim foi catalisador da insatisfação social com a pobreza e a péssima oferta do serviço público.

Charge da época

No início do século XX, o Rio de Janeiro passava por um processo de modernização encabeçado pelo prefeito Pereira Passos. O político foi influenciado pelas reformas ocorridas em Paris. Ao longo de seu mandato, Passos mandou demolir cortiços, barracos e expulsou a população mais pobre para as periferias, construindo no centro grandes avenidas e gerando um aumento no preço dos imóveis, o que contribuiu mais ainda para a segregação por classe social na cidade. Foi nesse período, por exemplo, que os morros cariocas sofreram um aumento demográfico intenso.
Junto com essas reformas, também vieram as políticas sanitárias, baseadas na ideia “eugenista”, uma área das ciências médicas que acreditava que as doenças tinham uma proliferação maior nas classes mais baixas.

Bonde virado no dia da revolta

Visando “higienizar” o Rio de janeiro, Passos contratou Oswaldo Cruz como chefe de saúde pública. E o sanitarista construiu um plano de vacinação para tentar erradicar a varíola e a febre amarela, duas doenças que assombravam e tiravam muitas vidas no período.

O processo de vacinação era pouco conhecido pela população da época, principalmente a mais pobre. No Brasil, o analfabetismo girava em torno de 95%, ou seja, o brasileiro tinha pouquíssima noção sobre ciência.

Charge mostrando Oswaldo Cruz como vilão

Diante da recusa da população em aderir à vacinação, foi criado um projeto que obrigava as pessoas a tomarem a medicação. Um dos artigos colocados exigia a carteirinha de vacinação para viajar, matricular o filho na escola e ter acesso a qualquer serviço público. Mesmo com essas imposições, a vacinação não deslanchava.

Foi, então, que Pereira Passos decidiu decretar que os agentes de saúde e a polícia fossem vacinar a população. Entrando de casa em casa, os agentes cometeram vários abusos, inclusive tocando nas mulheres e crianças. O que ajudou a revoltar ainda mais o povo pobre.
A forma como a vacina era aplicada, também era assustadoramente dolorida. E sem o esclarecimento, a aceitação se tornava casa vez mais difícil.

Esse conjunto de decisões políticas, desde a demolições de barracos à compulsoriedade da aplicação da vacina, catalisou uma revolta de 6 dias, ocorrida entre 10 e 16 de novembro de 1904, quando parte significativa da população foi às ruas, destruiu prédios públicos, bondes, entrou em confronto com a polícia e com demais agentes públicos.

No meio da revolta, houve uma tentativa de golpe militar. A repressão foi fortíssima, terminando em 30 mortos, 945 detidos e 461 deportados para seringais no Acre, depois de terem passado pela Ilha das Cobras, uma prisão terrível, um inferno no litoral do Rio de Janeiro .

A Revolta da Vacina não foi apenas uma rebelião contra a vacinação obrigatória, mas um catalisador, uma amostra do cansaço da população mais pobre com os péssimos serviços públicos e o terrível tratamento que o Estado dava aos miseráveis.

Referências:

https://bndigital.bn.gov.br/dossies/rede-da-memoria-virtual-brasileira/politica/a-revolta-da-vacina/

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232011000200002#:~:text=O%20epis%C3%B3dio%20consagrado%20como%20a,com%20pris%C3%B5es%20e%20deporta%C3%A7%C3%B5es8.

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252003000100032

https://portal.fiocruz.br/noticia/revolta-da-vacina-2

https://www12.senado.leg.br/tv/programas/historias-do-brasil/2017/10/a-revolta-da-vacina-historias-do-brasil

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