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O que a caneta de lotérica pode explicar sobre o brasileiro e suas relações cotidianas?


O fato da caneta, um bem tão barato e comum, ser acorrentada nas muitas lotéricas espalhadas pelo país, traz à luz uma face bastante conhecida da cultura nacional: a dificuldade em diferenciar o público do privado e o baixo nível de confiança na honestidade do próximo.

Sérgio Buarque de Holanda, Roberto DaMatta, Raymundo Faoro e outros tantos intérpretes se debruçaram, durante anos de suas carreiras, à análise de comportamentos peculiares que constituem a identidade do brasileiro.

No conjunto da obra, chegou-se à conclusão de que o povo brasileiro confia mais nas relações interpessoais informais do que nas leis, normas e instituições e que temos uma grande dificuldade em entender que há diferenças entre a coisa pública e a coisa privada. Partimos sempre do pressuposto de que a lei não funciona e que ela é feita apenas para dificultar nossos objetivos pessoais. Portanto, procuramos sempre um jeito informal e improvisado de resolver as coisas e de nos relacionar socialmente. Esse seria o famoso jeitinho brasileiro, a visão de que dá para ajeitar tudo quando apelamos para as relações informais. Esse famoso hábito, que nem sempre é prejudicial, é sintetizado pela “Lei de Gerson”, uma espécie de filosofia popularizada após uma propaganda de cigarros, em que o jogador de futebol dizia: “O brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”.

Por essas razões, é muito comum no Brasil, vermos pessoas cercando ruas públicas e transformando-as em parte de sua propriedade, donos de lojas colocando cones para delimitar os espaços destinados ao estacionamento de seus estabelecimentos, o oferecimento de propinas e presentes para agradar quem lhe prestou ou vai prestar um serviço, o tráfego pelo acostamento e tantos outros “jeitinhos” típicos em nosso país. Tendo em mente que essas ações são muito comuns e fazem parte de nossa cultura, a caneta, um simples objeto de uso comum, é tradicionalmente acorrentada a uma bancada e seu uso é limitado ao comprimento do cordão. O dono da lotérica tem a certeza de que, em algum momento, um cliente entrará no estabelecimento e, querendo levar vantagem, ou não entendendo que aquilo é um bem de uso comum, vai enfiá-la no bolso e levá-la para casa, causando um prejuízo ao dono do estabelecimento.

Esses símbolos e ações do cotidiano disseminam em nossa cultura baixos níveis de confiança entre as pessoas. O que transforma o brasileiro em um sujeito bastante desconfiado. Faz com que usemos o “jeitinho brasileiro”, mas que tenhamos medo de que outros acionem esse mesmo “jeitinho” e acabem nos prejudicando.

Obs: O maldito hábito dos políticos de usar a coisa pública para beneficio próprio também está ligado a esses aspectos culturais. A pessoa entra na política, é eleita, no entanto, prefere beneficiar seu lado privado à coisa pública. A esse tipo de funcionamento, damos o nome de “Patrimonalismo”. Mas esse é um conceito para um outro texto.

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