A triste história das meninas indianas que são transformadas em escravas sexuais


Da consagração à deusa Yellama à legitimação da prostituição

“Ele puxou o meu queixo na sua direção com as mãos, escrutinou o meu rosto com seus olhos entediados e disse que aquilo precisava ser feito para que a deusa abençoasse a família dele. Sem nenhuma outra palavra o homem começou a desabotoar a camisa e a abrir o cinto, largando as roupas uma a uma e jogando-as sobre a cadeira. Eu me enfiei embaixo da cama e me escondi ali, tentando, em vão, não chorar. Tudo ficou em silêncio por um tempo até que as mãos grandes e peludas dele se esticaram até mim, me agarraram e me jogaram na cama” (p.76).

O trecho acima foi retirado do livro “Todas as cores do céu”, da escritora indiana Amita Trasi. É uma história de ficção, mas que dialoga com uma realidade ainda muito presente entre as castas mais pobres da Índia, nas quais persiste o ritual de consagração de meninas à deusa Yellama, fazendo com que elas se tornem devadasis, “servas da deusa”, estando proibidas de se casarem e sendo obrigadas a atuarem como “prostitutas do templo”, devendo satisfazer sexualmente os homens da comunidade.

O ritual, proibido por lei em 1982, ainda persiste nos dias de hoje e leva meninas de 4 anos a serem consagradas à deusa e a se tornarem prostitutas ao atingirem a puberdade, passando a ter a dura tarefa de sustentar suas famílias e trazer lucros para donos de bordéis com os parcos rendimentos que ganham através do sexo.

Antes da época colonial, as devadasis tinham um status social alto, recebiam joias e bens de homens de altas castas e eram respeitadas na sociedade. Depois da chegada dos britânicos, no entanto, a moral cristã fez com que a consagração à deusa Yellama passasse a ser vista como um ato imoral e essas meninas e mulheres caíram na marginalidade, vivendo um duro processo de exploração sexual.   

Dentre os motivos que podem levar uma família a consagrar suas filhas à deusa Yellama, estão a falta de dinheiro para o dote necessário no momento de seu casamento ou o fato de não ter um filho homem, cabendo à filha devadasi o sustento da família.

Estima-se que, atualmente, haja cerca de 250 mil devadasis nas províncias de Karnataka e Maharashtra, no oeste da Índia. A maior parte dessas jovens não é alfabetizada e vive em situação de extrema pobreza, recebendo valores baixíssimos por cada programa.

O culto a Yellamma conta com um festival anual no qual as meninas são oferecidas à deusa. O evento atrai cerca de 500 mil peregrinos e movimenta muitas pessoas das castas mais baixas da Índia.

De acordo com a lenda, Yellamma havia ficado por três meses em abstinência sexual, por isso, precisa ser redespertada sexualmente para que não se torne infértil. No entanto, seu marido, Yamadagni, fora assassinado. Yamadagni é ressuscitado e, desse modo, o despertar sexual de Yellamma acontece, o que a leva a abençoar aqueles que fazem parte do ritual. A consagração das devadasis e a sua iniciação sexual representariam a reunificação da deusa e seu esposo. 

Desde 1940, têm sido feitas diversas tentativas de combate a esses rituais, o sucesso, entretanto, é bem baixo e a exploração sexual dessas mulheres segue firme, sendo, inclusive, responsável pelo aumento dos casos de AIDS entre as devadasis.

Sendo obrigadas a começarem a atividade sexual aos 11 ou 12 anos, essas meninas passam a vida sendo exploradas sexualmente, muitas são traficadas para trabalharem em bordéis de cidades maiores e, mesmo quando atingem uma idade em que passam a ser consideradas velhas, não lhes resta outra saída a não ser a atividade sexual ou a mendicância, em um ciclo marcado pela pobreza, abandono e marginalização.

Referências:

Amita Trasi. “Todas as cores do céu”. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2019.

https://www.revistaplaneta.com.br/devadasis-as-servas-da-deusa/

https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2011/jan/21/devadasi-india-sex-work-religion

https://reportersombra.com/a-terrivel-tradicao-das-meninas-devadasi/

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