A máscara da morte rubra: a festa pandêmica que provocou o encontro com a morte

“DURANTE muito tempo devastara a Morte Rubra aquele país. Jamais se vira peste tão fatal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinete: a vermelhidão e o horror do sangue. (…) E toda a irrupção, progresso e término da doença não duravam mais de meia hora”. Assim começa o conto “A máscara da morte rubra”, de Edgar Allan Poe. Publicado em 1942 na Graham’s Magazine, o texto narra a história de uma cidade que foi tomada por uma peste terrível e fatal que dizimara metade de sua população.        

Não há referências que indiquem o local e época em que a narrativa se passa, mas pelas descrições presentes no conto, é possível imaginar que ele esteja falando de algo como a peste bubônica.

Segundo os biógrafos de Allan Poe, ele teria se inspirado em uma história contada pelo escritor Nathaniel Parker Willis, que lhe narrara “um baile de cólera” do qual havia participado em Paris e será justamente um baile de máscaras em meio à devastação provocada pela morte que servirá de trama para a história.
No momento em que a peste chega aos domínios do Príncipe Próspero, ele seleciona mil cavalheiros e damas sadios de sua corte e se recolhe com eles em uma abadia fortificada. Manda tomar todas as providências necessárias para que a doença não chegue à abadia e ali permanece com seu grupo por cerca de seis meses. Até que Próspero decide fazer um baile de máscaras para distrair seus convivas.       
Enquanto o povo morre por causa da Morte Rubra, o príncipe e seus convidados aproveitam o luxo dos sete salões da abadia, agindo com grande indiferença diante da morte daqueles que não pertencem ao seleto grupo escolhido por Próspero.


A festa seguia cheia de glamour e empolgação, apenas o sétimo salão era evitado pelas pessoas, pois era decorado em tons negros e vermelhos, que remetiam ao horror que se propagava do lado de fora. Ali havia um grande relógio de ébano e, quando ele tocava, a música era interrompida e todos paravam de dançar, marcando uma constante oscilação entre som e silêncio a cada novo toque.


Quando soou a décima segunda badalada da noite, um mascarado vestido de Morte Rubra causou comoção entre os presentes. Desconcertado, o Príncipe Próspero pediu que o prendessem para que fosse enforcado no dia seguinte. No entanto, ninguém teve coragem de tocá-lo, nem mesmo Próspero que o deixa escapar estando muito próximo dele. Com o orgulho ferido e movido pelo desejo de vingança, o príncipe o persegue com um punhal até chegar ao salão vermelho e negro. Ao tentar tocá-lo, porém, quem cai morto é o príncipe. Diante do cadáver, a multidão se encoraja e tenta apanhar o mascarado, no entanto, embaixo de suas vestes não havia nada. Nesse momento, eles se dão conta de que quem estava ali era a Morte Rubra e, um a um, todos foram caindo mortos, o relógio de ébano parou de tocar quando o último corpo caiu no chão. “E a Escuridão, a Ruína e a Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo”, transformando a abadia em um imenso sepulcro.  

Atualmente, esse conto tem sido muito revisitado e diversas análises fazem analogias entre o comportamento de Próspero e seus convidados e o daqueles que minimizam os impactos da pandemia ou furam o distanciamento social para frequentar festas e participar de atividades de lazer. Para alguns críticos, muito mais do que uma história fantástica sobre uma epidemia, “A máscara da morte rubra” é um conto que reflete sobre a ilusão de segurança que alguns privilegiados pensam ter diante de um perigo iminente, revelando os absurdos da natureza humana. Assim, o destino fatal daqueles que brincam com a morte estaria ali a espreitá-los, apenas procurando o momento certo de dar o bote.

Referências:

http://www.beatrix.pro.br/index.php/a-mascara-da-morte-rubr-edgar-allan-poe/

https://abralic.org.br/anais/arquivos/2017_1522187551.pdf

POE, Edgar Allan. Contos de Terror, de Mistério e de Morte. Tradução de Oscar Mendes. Clássicos Cultura. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

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