A guilhotina, os “Napoleões de Hospício” e o nascimento da psiquiatria

A loucura sempre foi um tema que fascinou e inquietou pessoas ao longo da história humana. Acredita-se que a psiquiatria teve suas origens no século V, em mosteiros controlados pela Igreja Católica. Eram também monopólio da Igreja as explicações sobre como e porque o indivíduo enlouquecia. Geralmente, mesclando explicações espirituais, metafísicas e científicas. Porém, foi apenas durante o evento conhecido como Revolução Francesa e seus desdobramentos na vida cotidiana das pessoas, que o número de pessoas que desenvolveram transtornos mentais conseguiu impulsionar o desenvolvimento da psiquiatria como uma ciência autônoma e independente.

A Nau dos Loucos de Hieronymus Bosch mostra como a loucura era tratada no período da Idade Média. Os doentes, que eram considerados endemoniados, eram alçados ao mar em um barco e nunca mais retornavam

Segundo Laure Murat, em sua obra “O Homem que se Achava Napoleão”, podemos citar o desenvolvimento formal da psiquiatria, como conhecemos atualmente, a partir de eventos decorrentes da Revolução Francesa e de fatos ocorridos nesse importante processo histórico.

A Revolução é considerada a alteração política mais significativa na história do Ocidente. Segundo os historiadores, o evento trouxe à tona e implantou, gradualmente, as ideias que alteraram a visão política e científica do mundo contemporâneo.

Imagem da Revolução Francesa a alteração política mais significativa da era contemporânea

Murat conclui, após analisar milhares de arquivos do período, que a loucura foi uma questão muito presente durante o processo revolucionário, principalmente no momento de crise política conhecido como “Período do Terror”, ocorrido entre 5 de setembro de 1793 – quando ocorreu a queda dos girondinos – e 27 de julho de 1794. Essa época compreende ao período da Revolução em que muitas pessoas foram executadas pelo Estado Francês, um momento de paranoia e histeria coletiva que mexeu com a saúde mental das pessoas, fazendo com que centenas delas dessem entrada em hospitais acreditando que tiveram a cabeça cortada.

O termo “perdeu a cabeça”, por exemplo, surgiu nessa época e refere-se à criação da guilhotina, conhecida também como lâmina da igualdade. Nesse período, muitos cidadãos franceses passaram a sofrer com transtornos mentais. Em Paris, inicia-se um movimento de consolidação da psiquiatria através do protagonismo de doutor Philippe Pinel, um francês que considerava a “loucura” como uma doença e acreditava que o portador de tal enfermidade não deveria ser tratado como uma figura endemoniada. O autor lançou “Traité médico-philosophique sur l’aliénation mentale ou la manie”, que é considerada a publicação que inaugurou a psiquiatria contemporânea e foi um sucesso de leitura e debate na comunidade científica e política do período.

Philippe Pinel, um dos fundadores da Psiquiatria Moderna

Com a ascensão das ideias de humanização, carregadas à ferro e fogo pela Revolução Francesa, várias clínicas começaram a surgir no país, impulsionadas pelo aumento dos doentes com transtornos mentais. Rapidamente, a igreja perdeu o monopólio da explicação e tratamento da loucura e médicos começaram a ser formados para realizar o trabalho.

Carrasco mostra a cabeça de um homem após o uso das guilhotinaa

Durante o início do século XIX, com a ascensão de Napoleão Bonaparte como principal líder da Revolução, uma das primeiras patologias exclusivamente estudadas pela psiquiatria foi catalogada como a “Monomania”. Quando Bonaparte perde o poder no país e é isolado na Ilha de Elba, centenas de indivíduos pela Europa foram internados em instituições psiquiátricas dizendo que eram o líder francês. Essas pessoas ficaram mundialmente conhecidas como “Napoleões de Hospício”. Acredita-se que a doença, na qual um indivíduo acredita ser outra pessoa, veio da imagem carismática, messiânica e de liderança do governante francês. A dependência carismática do líder e as reviravoltas políticas fizeram com que muitas pessoas enlouquecessem e passassem a acreditar que eram o próprio Napoleão.

Fotografia de pacientes internados nos hospitais psiquiátricos da França durante o final do Século XIX


Foi a partir da loucura desses homens, estudada à exaustão por médicos e cientistas, que a psiquiatria foi se constituindo como uma ciência autônoma e desenvolvendo práticas e fármacos para tratar os diversos transtornos mentais do novo mundo que surgia após as Guerras Napolêonicas.

Estudo da Loucura

Os fatos ocorridos ao final do século XVIII e início do XIX propiciaram a construção e a constituição da psiquiatria como ciência do estudo da loucura e demais transtornos mentais e contribuíram e muito para os tratamentos de males que, atualmente, atingem boa parte da população mundial, como a depressão, a ansiedade e outras tantas tensões que nossa mente moderna impõe sobre nosso pobre corpo mortal.

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Referências:

ZILBOORG, G.H. “Historia de la psicologia medica”. Buenos Aires: Psique, 1963.

ODA, A.M.G.R. “Sobre a Revisão da Tradução”. In: PINEL, Ph. “Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental ou a mania”. Tradução de Joice A. Galli. Porto Alegre: Ed. da UFGRS, 2007

MURAT, Laure. “O homem que se achava Napoleão – por uma história política da loucura”. Três Estrelas: São Paulo, 2012.

https://journals.openedition.org/artelogie/4152

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-47142008000300014

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