Tentação do demônio: a história do sexo na Idade Média

A maneira como homens e mulheres lidam com o sexo varia conforme a época, a cultura, a religião. Durante a Idade Média, no Ocidente, as práticas sexuais foram moldadas de acordo com preceitos da Igreja Católica. Desse modo, o sexo só era permitido entre pessoas casadas e com o único objetivo de procriar. O desejo sexual era visto como uma tentação provocada pelo diabo e deveria ser reprimido a todo custo. Sexo era pecado e pensar no assunto já era considerado uma afronta aos princípios divinos.

No século XII, Graciano, um monge jurista, sistematizou um conjunto de leis que norteavam as práticas sexuais. O casamento só existia para gerar filhos, o excesso de sexo entre um casal era uma tentação do demônio e poderia ser punido pela Igreja. Todo ato sexual envolvia o pecado, portanto, ele deveria ocorrer apenas visando a reprodução.

Até mesmo as posições sexuais eram determinadas pela igreja. Apenas a posição missionária era permitida. Correspondente ao atual papai-e-mamãe, essa posição era a indicada, pois a mulher deveria sujeitar-se ao seu marido. Além disso, não se deveria visualizar o corpo nu, por isso, muitos casais faziam sexo usando um lençol com um furo no meio.

Sexo em excesso era visto como um grande mal, que poderia encurtar a vida, mirrar o físico, reduzir o desenvolvimento mental e prejudicar a visão. A masturbação masculina era tratada como um pecado e acreditava-se que quem a praticava ficava com espinhas ou calos nas mãos. O simples toque de uma mulher em suas partes íntimas era tomado como indício de feitiçaria ou possessão demoníaca. Até mesmo o banho era considerado um ato libidinoso e as pessoas deveriam banhar-se vestidas.

O homem precisava evitar o gozo desnecessário, pois o sêmen não poderia ser desperdiçado, já que deveria ser usado apenas para gerar descendentes. O orgasmo feminino era visto como uma tentação demoníaca e o homem tinha o dever de permanecer vigilante para que suas mulheres não fossem tomadas por essa força incontrolável que as levava à perdição.

Para conter os impulsos femininos, por volta de 1405, foi criado o cinto de castidade Bellifortis. Ele era feito de metal, tinha aberturas farpadas que permitiam que a mulher urinasse, mas impedia a cópula. Além disso, criaram a técnica da infibulação, através da qual se costurava a vagina da mulher para garantir sua fidelidade ao senhor feudal durante as suas viagens. 

O sexo só deveria acontecer à noite, duas vezes por semana, sem palavras ou gestos que pudessem provocar excitação, qualquer outra posição que não fosse a missionária provocaria a ira de Deus e era considerada um grande pecado. Sexo oral ou anal não serviam para procriar, portanto, eram antinaturais e vistos como um pecado mortal, podendo levar à prisão. Além disso, posições diferentes da recomendada eram vistas como causadoras de deficiências nas crianças. A mulher jamais deveria ficar por cima do homem, pois isso provocaria uma inversão de papéis e a ela cabia apenas a submissão. A penetração por trás era vista como um ato animal, portanto, também era proibida.

Chamadas de sodomia, as relações homossexuais eram consideradas um grande desvio e poderiam ser punidas com a pena de morte. Já a prostituição acabava acontecendo. Se os homens não podiam ter prazer com suas esposas, buscavam prostitutas para se satisfazerem. Embora a prostituição fosse condenada pela igreja, as prostitutas eram obrigadas a darem metade dos seus lucros ao clero.

Até mesmo a alimentação era associada ao sexo. Como uma forma de inibir os desejos carnais, era recomendada uma dieta rica em vegetais crus e uma alimentação moderada. Comida e bebida em excesso aumentavam o calor do corpo, produzindo impulsos sexuais, os quais deveriam ser contidos sob pena de punição.  

Ao longo do ano, os casais passavam cerca de 180 dias sem sexo, já que a prática era proibida aos domingos, dias santos, quaresma. Também não deveria acontecer durante os dias em que a mulher estivesse menstruada, grávida ou amamentando. Quem violava essas regras era punido com 40 dias de jejum alimentar, além de outras penitências.

Numa época em que o prazer era visto como pecado e qualquer prática sexual que fugisse do objetivo único da reprodução era tratada como algo abominável, a masturbação, o sexo oral, o sexo anal e o relacionamento homossexual eram tratados como crimes e poderiam ser punidos com morte na fogueira, forca, fome, mutilação ou excomunhão.

Tratado como uma fonte incessante de pecado, o corpo deveria estar sempre coberto. Mesmo durante o sexo, a nudez total não era permitida. Usar o corpo como fonte de prazer era uma atitude pecaminosa, provocada pelo demônio e que afastava o ser humano dos anseios divinos. Desse modo, sexo e prazer estavam proibidos, para gozar das graças de Deus, o gozo carnal deveria ser contido de todas as maneiras possíveis.

Referências:

LE GOFF, Jacques e TRUONG, Nicolas. “Uma história do corpo na Idade Média”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

ROSSIAUD, Jacques: “A Prostituição na Idade Média”. Rio de janeiro: Paz e terra, 1991.

FOUCAULT, M. “História da sexualidade: o uso dos prazeres”. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

PERCIVALDI, Elena. “A vida secreta da Idade Média. São Paulo: Vozes, 2018.

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