Quando a sua pele o transforma em alvo

João Alberto, Pedro, Agatha, João Pedro, Juan, Miguel, nomes que ocuparam as páginas dos jornais, tomaram as redes sociais e mobilizaram protestos e hashtags por alguns dias, até surgirem novas comoções e essas mortes entrarem para as tristes estatísticas que marcam nosso país.

João Alberto Silveira Freitas, morto por asfixia, após ser brutalmente espancado por seguranças no supermercado Carrefour, em Porto Alegre, no dia 19 de novembro de 2020. Pedro Oliveira Gonzaga, morreu sufocado por seguranças em um supermercado Extra, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2019. Agatha Vitória Sales Félix, morreu baleada por um tiro de fuzil nas costas, dentro de uma Kombi, enquanto retornava com a sua mãe para casa, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em setembro de 2019. João Pedro Mattos Pinto, morreu com um tiro de fuzil, atingido dentro de sua casa, no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro, em maio de 2020. Miguel Otávio Santana da Silva, morto após cair do 9º andar de um prédio de luxo no Recife, em junho de 2020, Evaldo dos Santos Rosa, morreu após ter seu carro alvejado por 80 tiros disparados por militares do Exército, no Rio de Janeiro, em abril de 2019.

O que há em comum entre essas pessoas além do fato de que tiveram mortes trágicas e que produziram comoção? A cor de suas peles, peles negras, cujas vidas parecem valer menos, cujas mortes parecem ser mais naturalizadas. Por mais que se negue esse fato, por mais que as pessoas insistam em dizer que não há relação entre a morte e a origem racial das vítimas, por mais que o racismo seja negado veementemente, que o discurso da consciência humana seja erguido como uma bandeira a cada vez que se fala em consciência negra ou que a discussão em torno do genocídio negro seja tachada como um exagero esquerdista, as estatísticas não mentem, os números estão aí, escancarados para quem quiser olhar.

As notícias nos jornais, os posts nas redes sociais, os celulares que filmam atos racistas, corpos negros sendo lançados ao chão, esmurrados, presos em postes, chicoteados, asfixiados, furados por tiros, não nos permitem negar, homens, mulheres, crianças negras são diariamente vítimas das mais variadas formas de violência, entrando para as estatísticas, enquanto muito sangue vai sendo derramado no solo de um país que foi forjado em cima do trabalho escravo e da violação de direitos fundamentais.

“Ah, mas ele foi vítima de bala perdida, como isso pode ter a ver com a sua cor?”, dizem os incautos. Os números nos mostram que essa bala de perdida não tem nada, quase sempre ela é mirada em direção a corpos negros, sejam porque são esses corpos que, em sua maioria vivem nas favelas e periferias onde acontecem constantes trocas de tiro, sejam porque esses corpos são os primeiros a ser tornarem suspeitos em qualquer ocorrência policial. Quem não acredita nessas evidências, pode olhar os números, eles são muito claros quanto ao fato de que os negros são as maiores vítimas de homicídios e mortes violentas no Brasil. Como nos lembra Conceição Evaristo, “A bala não erra o alvo, no escuro /um corpo negro bambeia e dança /A certidão de óbito, os antigos sabem, /veio lavrada desde os negreiros”.

Uma certidão de óbito que vai sendo escrita ainda no útero materno, já que os dados mostram que mulheres pretas e pardas respondem por 65% das mortes maternas e que até um ano de vida, crianças negras terão 22,5% a mais de chance de morrer que as crianças brancas.

Para quem gosta de dados, eles estão aí, fornecidos aos montes para comprovarem que o Brasil é um país marcado pela desigualdade racial e que, por mais que se tente esconder essa realidade, os números são implacáveis ao escancará-la diariamente. 56% da população brasileira é negra. 61% da população carcerária do Brasil é negra. Os negros no Brasil ganham apenas 50% da renda dos brancos. Menos de 18% dos médicos brasileiros são negros. Somente 12% dos negros chegam ao ensino superior. 71% das vítimas de homicídios no Brasil são pessoas negras. 29% dos professores universitários são negros. 3% dos apresentadores de TV são negros. 1% do número de juízes do Brasil é negro. 10% dos deputados e senadores são negros. 17% dos negros estão entre os mais ricos do país. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.

Se as manchetes nos jornais estampando mortes como as citadas nesse texto não são suficientes para mostrar que nosso país é marcado pela desigualdade racial e que o racismo é um mal entranhado em nossa história, negar esses dados é impossível. Não há discurso meritocrático ou negacionismo que dê conta de negar a explicitude desses números. Números que são resultado de um processo histórico, através do qual o povo negro foi oprimido, explorado, teve seus direitos básicos usurpados e, mesmo depois da abolição, continuou sendo discriminado e não tendo acesso a condições mínimas necessárias para uma vida digna.
Como mulher branca, eu jamais saberei o que é sofrer o preconceito racial praticado diariamente contra os negros, jamais terei noção do que é entrar numa loja e ser olhada com desconfiança, jamais imaginarei correr o risco de ser espancada até a morte, mesmo que eu seja grosseira com algum funcionário ou furte alguma coisa do supermercado.

Como mulher branca, o que posso fazer é tentar compreender essa dor, é tentar imaginar o que é sentir esse medo e me colocar em uma posição de escuta e de luta ao lado daqueles cujo tom pele os transforma em alvos. Entendendo que não há justificativa para o injustificável, que não cabem orações adversativas quando estamos falando de alguém que morreu asfixiado enquanto era agredido, quando tratamos da morte de uma pessoa que teve seu carro fuzilado porque foi confundido com bandidos, quando tratamos da morte de uma criança negra que foi deixada sozinha em um elevador por uma mulher branca, quando falamos de um adolescente que levou um tiro de fuzil dentro da própria casa. Eliane Brum diz em um de seus textos que “quando ao meu redor os negros têm os piores empregos e os piores salários, a pior saúde, o pior estudo, a pior casa, a pior vida e a pior morte, eu, na condição de branca, existo violentamente mesmo sem ser uma pessoa violenta”, portanto, o mínimo que posso fazer é respeitar a luta do movimento negro e combater tanto a naturalização dessas mortes, quanto o racismo que contribui muito para que elas aconteçam.  

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