A sangrenta e violenta origem dos contos de fadas

Banhadas com muito sangue, pedofilia e violência explícita, as primeiras histórias, que hoje habitam o imaginário popular, principalmente infantil, foram amenizadas com o tempo, ganhando contornos mais coloridos e ares de inocência

Os contos de fadas fazem parte do imaginário da maioria das crianças, estando presentes tanto em suas memórias de leitura quanto nas lembranças de belos filmes produzidos pela Disney. No entanto, em suas origens, eles estão muito distantes das belas histórias infantis que conhecemos e são marcados por muita violência, abuso sexual e abandono.
Muitos autores atribuem a sua origem ao povo celta, em II a.C. Essas histórias, porém, não eram destinadas a crianças, especialmente porque, nessa época, sequer existia o conceito de infância. Eram narrativas marcadas por cenas de adultério, canibalismo, incesto e mortes extremamente violentas. Passadas de geração em geração, elas eram contadas em reuniões sociais, lavouras e aldeias.           

O Pequeno Polegar. Ilustração de Gustave Doré.


Tal como são conhecidos hoje, esses contos surgiram na Europa, principalmente na França e na Alemanha, no final do século XVII e XVIII. Dentre os precursores dessas narrativas, encontra-se Charles Perrault, que registrava as histórias populares e adaptava-as conforme a moral francesa da época, fazendo com que a violência das histórias originais fosse substituída por um olhar mais humano e pela disseminação de princípios morais.

Chapeuzinho Vermelho. Ilustração de Gustave Doré.

Outros disseminadores dessas narrativas foram os alemães Jacob Grimm e Wilhelm Grimm. Conhecidos como Irmãos Grimm, eles coletaram inúmeras histórias medievais de origem germânica e francesa e, entre 1812 e 1822, as publicaram em três volumes destinados ao público infantil e adulto, mantendo as características originais das narrativas, sem o caráter moralizante de Perrault.      

Barba Azul. Ilustração de Gustave Doré

Em suas versões originais, os contos de fadas traziam experiências compartilhadas pelos camponeses em suas aldeias. A presença das madrastas, por exemplo, era muito frequente, já que diversas mulheres morriam no parto e os viúvos casavam-se novamente, buscando alguém que os ajudasse a cuidar dos filhos, assim, era comum que as madrastas tivessem predileção por seus filhos legítimos e tratassem os enteados com certo desdém e até crueldade. Além disso, a fome era um problema constante na vida dessas pessoas, portanto, não era raro abandonar crianças nas florestas ou mandá-los mendigar em busca de garantir a sua sobrevivência. Aconteciam também histórias de canibalismo como a que vemos em “João e Maria”, quando a bruxa má tenta comer as crianças perdidas na floresta. No original, as crianças foram deliberadamente abandonadas e há registros históricos que comprovam que comer carne humana era uma forma de sobreviver à fome extrema que marcou diferentes momentos de nossa história. 

Chapeuzinho Vermelho. Ilustração de Gustave Doré.

Relações de abuso sexual e casamentos forçados também eram frequentes no passado. Desse modo, as versões antigas dos contos de fadas traziam histórias que ilustravam essas práticas. Na versão original de “Chapeuzinho Vermelho”, por exemplo, o lobo mau mata a vovó e serve sua carne para Chapeuzinho, pedindo, em seguida, que ela tire suas roupas e se deite nua ao seu lado. Na “Bela Adormecida”, a jovem cai em sono profundo após espetar o dedo em uma roca, um príncipe que passava pelo local a estupra e ela fica grávida de gêmeos, o encanto só será quebrado quando um dos bebês morde seu dedo e retira a roca envenenada. “A bela e a fera” simboliza as muitas histórias de casamentos arranjados em que, frequentemente, as mulheres se viam obrigadas a se casarem com homens violentos, os quais as tratavam como se fossem uma propriedade e as obrigava a servir-lhes sem qualquer objeção.  

Chapeuzinho Vermelho. Ilustração de Gustave Doré.

 
Acostumados às versões adaptadas desses contos, os originais parecem-nos extremamente violentos e impróprios para o público infantil, mas, olhando para essas histórias, percebemos que elas traduzem a mentalidade da época em que foram produzidas e expressam a realidade dos povos que as contavam oralmente. Segundo Bettelheim, a violência é inerente ao ser humano, por isso, através dessas histórias de ficção, a criança seria capaz de recriar internamente seus próprios medos, aprendendo a lidar com suas falhas e a resolver seus conflitos interiores.    

Referências:

Bettelheim, B. (1980). “A psicanálise dos contos de fadas”. 19. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

DARNTON, Robert. “O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa”. Tradução Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

HUECK, Karin. “O lado sombrio dos contos de fadas”. São Paulo: Super Abril, 2016.

https://super.abril.com.br/…/o-lado-sombrio-dos-contos…/

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