“O diário de Anne Frank”: a escrita como sobrevivência

Como é ser uma adolescente em meio à guerra? Como lidar com a perseguição nazista e o medo de ser descoberta a qualquer momento? O que fazer para entender as angústias típicas da idade quando a privação da liberdade e a ameaça da prisão e da morte pairam a todo momento em sua cabeça? Questões como essas emergem da leitura do livro “O diário de Anne Frank”, obra já traduzida para 67 línguas e que já vendeu 35 milhões de cópias em todo o mundo.

Escrito em uma época em que os diários eram secretos, trancados a sete chaves, escondidos de quem quer que seja, pois eles serviam como um espaço íntimo de desabafo e manifestação daquilo que seus autores guardavam apenas para si próprios, o diário escrito pela jovem judia acabou ganhando uma proporção muito maior do que ela poderia imaginar, deixando de ser apenas um relato de uma adolescente de treze anos e se tornando um documento que revela através do olhar dessa adolescente os horrores da Segunda Guerra Mundial.

A garota que sonhava em ser jornalista ou escritora, teve a sua vida interrompida muito cedo, mas deixou um importante legado ao fazer da escrita o caminho para lidar com todas as angústias que consumiam a sua curta vida. Ler o diário escrito por Anne Frank é uma forma de compreender o que é ter a vida completamente devastada e seguir esperando dias melhores.

A garota se tornou conhecida no mundo inteiro graças à sua escrita. Uma escrita que começou com a descrição do cotidiano e dos dramas comuns da adolescência e ganhou uma dimensão muito maior em meio à guerra. Annelies Marie Frank nasceu no dia 12 de junho de 1929, em Frankfurt, na Alemanha. Conhecida como Anne Frank, era filha do casal judaico Otto Frank e Edith Frank-Holländer. Tinha uma irmã mais velha chamada Margot Frank.

Anne nasceu em uma família de classe média alta, tendo uma vida confortável e o acesso a uma boa biblioteca. Com a ascensão de Hitler, entretanto, a vida dos judeus alemães começa a se complicar. As escolas demitem todos os professores judeus, os alunos começam a ser segregados e a situação financeira dos judeus vai ser tornando mais difícil.

Nesse contexto, a família Frank decide se mudar para Amsterdã, na Holanda, em 1933. Otto decide implementar nesse país uma fábrica que vendia produtos para fazer geleias.

Ali, a vida deles parecia voltar à normalidade. As meninas retornaram para a escola, os negócios voltavam a funcionar e tudo parecia correr bem. Otto abriu outra empresa que comercializava ervas, sais e temperos para a produção de carnes, fez novos amigos e a vida começava a entrar nos eixos novamente.

Enquanto isso, porém, a situação na Alemanha ia se tornando cada vez mais tensa. A repressão aos judeus crescia desenfreadamente. O antissemitismo parecia não ter mais volta.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o que já era ruim, ficou pior ainda.  Como diz Anne Frank em uma das páginas de seu diário: “Depois de maio de 1940, os bons momentos foram poucos e muito espaçados: primeiro veio a guerra, depois a capitulação, em seguida, a chegada dos alemães, e foi então que começaram os sofrimentos dos judeus”.

Rapidamente, a perseguição aos judeus chegou também à Holanda. Margot e Anne passaram a estudar em uma escola apenas para crianças judias. Otto Frank precisou colocar as suas empresas no nome de dois amigos não-judeus, todos passaram a usar uma estrela amarela costurada em suas roupas.

Otto Frank e suas filhas, Margot e Anne

Em 1942, em seu aniversário de 13 anos, Anne Frank ganhou um diário de presente e nas páginas desse caderno eternizou seu nome na história. Escrever passou a ser forma que ela encontrou de lidar com tudo que vinha acontecendo em sua vida. Ela registrava não só seus questionamentos de adolescente, mas também todas as mudanças que passaram a marcar a vida dos judeus a partir daquele momento.

Em julho de 1942, a família Frank passou a viver escondida em um compartimento secreto que havia em um antigo escritório de Otto. Conhecido como Anexo Secreto, o local passou a abrigar os Franks e os van Pels até o dia em que foram descobertos pelos nazistas.

A nova realidade fez com que Anne Frank chegasse à seguinte constatação:  “A minha descontraída alegria, e os despreocupados dias de escola foram-se para sempre.”

Escondido atrás de uma estante móvel, o Anexo Secreto era formado por três andares, nos quais havia pequenos quartos, um banheiro e uma sala comunitária. Ali passaram a viver Otto, Edith, Margot, Anne; os integrantes da família van Pels, Hermann, sua esposa Auguste e seu filho Peter, além do dentista Firtz Pfeffer.

Ninguém estava autorizado a sair dali. Quatro funcionários da confiança de Otto levavam para eles aquilo de que precisavam e, por dois anos e um mês, aquelas paredes foram a única coisa que viram e o único lar que conheceram até serem descobertos pelos nazistas e levados para campos de concentração.

O medo, o silêncio e a total impossibilidade de fazer qualquer movimentação passaram a marcar a vida daquelas pessoas. Os reflexos disso alterarão profundamente os relatos de Ane Frank, seu diário já não era mais o registro das dúvidas e anseios de uma adolescente, ele passou a ser um espaço de manifestação de toda a angústia provocada pelo confinamento, além disso, se tornou um registro potente do horror vivido pelos judeus durante o regime nazista. Escrever é a forma de não se sentir sufocada e, a cada página preenchida, Anne Frank expõe o turbilhão de sentimentos que a consomem e nos mostra como é viver em uma realidade jamais esperada, mas que se tornou a única forma possível de manter a sobrevivência.

Medo, privação de liberdade, falta de privacidade, escassez de itens básicos de sobrevivência se tornam rotina na vida daquelas oito pessoas que dividem o Anexo Secreto. No meio do horror, porém, Anne Frank tenta manter alguma normalidade. Ali, ela dá o seu primeiro beijo e registra em seu diário o que sente ao estar com Peter van Pels. Escreve também sobre momentos de descoberta de sua sexualidade e de reflexões sobre o seu corpo, refletindo sobre seu processo de amadurecimento como mulher.

No registro escrito de Anne Frank vemos através de suas palavras os dilemas da adolescência e como esses dilemas se tornam pequenos diante da perseguição imposta aos judeus, diante do medo de que qualquer movimento diferente possa significar o rompimento da linha tênue entre vida e morte.

Casa de Anne Frank

Em 4 de agosto de 1944, o Anexo Secreto foi descoberto pelos nazistas. Os oito moradores daquele local foram levados em caminhões para um centro de detenção. As páginas do diário de Anne ficaram caídas no chão do abrigo onde ela as escrevera. Guardadas por Miep Gies e Bep Voskuijl, únicas protetoras dos judeus que não foram presas, elas foram entregues à Otto Frank e deram origem a um dos diários de guerra mais famosos do mundo.

Inicialmente, os oito judeus foram deportados para o campo de Westerbork. Em setembro de 1944, foram levados para Auschwitz, na Polônia, onde homens e mulheres foram separados, números foram tatuados em seus braços, suas cabeças foram raspadas e um ciclo ainda maior de horror foi iniciado.

Otto Frank foi o único sobrevivente do grupo. Em 27 de janeiro de 1945, soldados russos libertaram 7 mil prisioneiros de Auschwitz, entre eles, Otto.

Em novembro de 1944, Margot e Anne foram enviadas ao campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Nesse local, as duas jovens morreram de tifo uma semana antes do campo ser libertado.

De volta à Amsterdã, Otto Frank descobre ser o único sobrevivente de sua família e, em junho de 1947, publica a primeira edição do “Diário de Anne Frank”. Atualmente, o Anexo Secreto foi transformado no museu Casa de Anne Frank e a história da adolescente judia se tornou conhecida no mundo inteiro, tornando-se um símbolo da tragédia que marcou a vida dos judeus durante o regime nazista.

Capa da primeira edição de “O diário de Anne Frank”

Nas páginas do diário de Anne Frank encontramos as dúvidas existenciais de uma menina e profundas reflexões sobre o mundo em que vive e sobre um horror inimaginável. Ao mesmo tempo em que sonha com um futuro sem guerra, Anne se pergunta por que o mundo não pode viver em paz. Por que há tanta destruição e sofrimento? Ela se reconhece como privilegiada por ter um lugar onde se esconder e estar protegida das atrocidades que estão sendo cometidas contra os judeus, mas lamenta a perda de liberdade e o medo diário que passam a marcar a sua vida.

Através da escrita da garota judia, mergulhamos na dura experiência vivida pelos judeus e somos apresentados às sensações de alguém que viveu na pele todo o horror daquela época. Ler o “Diário de Anne Frank” hoje é tomar consciência de que esse horror esteve muito perto de todos nós e deve ser conhecido para que não se repita.

Referências:

FRANK, Anne. “O diário de Anne Frank”. Trad. Ivanir Alves Calado. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2004.

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/06/anne-frank-relembre-trajetoria-da-garota-judia-durante-o-holocausto.html

https://revista.uemg.br/index.php/sciasdireitoshumanoseducacao/article/view/4249/pdf

https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/SIP/article/view/11659

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