Amor proibido: a história de perseguição ao primeiro casal gay a se assumir no Exército Brasileiro

Fernando de Alcântara de Figueiredo e Laci Marinho de Araújo se conheceram em Brasília, em 1995. Dois anos depois, eles iniciaram um namoro. Como eram oficiais do Exército sabiam que o relacionamento não seria bem visto entre os colegas, então, inicialmente, o mantiveram em segredo.

Em 2008, entretanto, Fernando e Laci deram uma entrevista para a revista Época, na qual falaram não apenas sobre o relacionamento, como também sobre o preconceito que existe contra homossexuais dentro do Exército. Segundo eles, “há muito mais homossexual no Exército do que se imagina”, os relacionamentos, porém, na maioria das vezes, são mantidos escondidos porque o preconceito e a perseguição com quem se assume são evidentes.

Ao saírem na capa da revista Época, os dois não estavam apenas se assumindo publicamente, estavam abrindo espaço para que a questão fosse discutida e outros casais também se assumissem. As consequências dessa decisão, no entanto, foram muito além do que eles poderiam imaginar.

Laci pediu afastamento do trabalho, alegando problemas de saúde, acabou sendo transferido para Osasco, a 1.000 quilômetros de distância do seu companheiro. Ele não compareceu ao novo posto e foi considerado desertor. Além disso, Laci e Fernando haviam feito uma denúncia de corrupção no hospital militar, o que fez com que a situação deles no Exército se tornasse ainda mais tensa.

Logo depois da publicação da revista, uma juíza expediu o mandato de prisão para Laci, já que ele tinha sido considerado um desertor. O casal foi ao programa SuperPop dar uma entrevista e a emissora acabou cercada por viaturas da polícia e do Exército. Com medo de ser morto, caso se entregasse, Laci negociou com os coronéis e foi levado para um hospital militar.

Duas semanas depois, Fernando foi preso, acusado de transgressão disciplinar. De acordo com o comando do Exército, ele havia aparecido na reportagem da revista Época com um uniforme inapropriado, tinha faltado do trabalho para participar do programa da Rede TV e havia escondido do Exército o paradeiro do seu companheiro.

Laci e Fernando acabaram se tornando símbolos da luta dos homossexuais contra a discriminação. A história dos dois foi narrada no livro “Soldados não choram”. Em 2009, eles fundaram o Instituto Ser de Direitos Humanos e da Natureza, com o objetivo de dar amparo a outros membros do Exército que sejam vítimas de preconceito.

No ano de 2011, eles conseguiram a aposentadoria parcial do Exército, mas lutam na Justiça pela aposentadoria Integral. Nesse mesmo ano, o STF equiparou os direitos de casais heterossexuais e homoafetivos.

Embora não houvesse nenhuma base legal que impedisse o ingresso de homossexuais no Exército, o artigo 235 do Código Penal Militar tratava como crime sexual a “pederastia ou outro ato de libidinagem”. Em 2015, o STF determinou a retirada dos termos “pederastia” e “homossexual” do documento. Esses avanços foram importantes, mas a homossexualidade ainda é encarada como um tabu dentro do Exército e, apesar de não ser assumida explicitamente, a discriminação é bastante forte, fazendo com que muitos casais mantenham seus relacionamentos em segredo com receio de sofrerem perseguições.

Referências:

https://epoca.globo.com/especiais/EPOCA-1000/noticia/2017/08/o-que-aconteceu-com-o-primeiro-casal-gay-se-revelar-no-exercito-brasileiro.html

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2008/06/04/interna-brasil,10835/casal-gay-de-soldados-do-exercito-e-preso-por-crime-de-desercao.shtml

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