O país do privilégio: O tiozão da Hilux e a escravidão no Brasil

O que o homem de óculos escuros e carro grande, que acelera tantas pessoas na faixa da esquerda da rodovia, tem a ver com o processo de escravidão no Brasil?

Não é possível entender a história do nosso país sem compreender a escravidão e todos os males que ela causou à nossa formação social como povo.
O Brasil foi um dos países do mundo que mais recebeu mão de obra escrava. Todos os dias, escravizados eram despejados nos portos nacionais. O Brasil Colônia se formou e foi sustentado pela mão de obra negra. E a sociedade brasileira foi sendo constituída a partir da naturalização da desigualdade e da demonização do serviço braçal.
Os negros e mestiços eram considerados, pelos homens brancos de engenho ou café, como seres inferiores, sem o direito de participar e usufruir de espaços privilegiados.

E, dessa forma, o Brasil foi tomando forma.

Durante muito tempo, vigorou no Brasil o discurso de que o trabalho braçal era coisa de negros. Em nossa literatura, por exemplo, vemos personagens como Jão Fera, da obra “Til”, de José de Alencar, que prefere se tornar um matador de aluguel a ter que trabalhar na roça, “como se fosse um negro”.

Essa inferiorização do trabalhador que executa serviços braçais, de limpeza ou qualquer outra área considerada menor, revela o quanto a desigualdade impera em nosso país e é legitimada por quem se julga em uma posição superior. Ainda com relação a isso, é interessante observar que as mesmas pessoas que inferiorizam os trabalhadores que executam essas funções, quando saem do país, acabam também exercendo serviços desse tipo e acham que isso faz parte de seu projeto de intercâmbio, por exemplo. Ou seja, ser trabalhador doméstico ou peão de firma no Brasil é vergonhoso, enquanto nos Estados Unidos ou em outro país considerado de primeiro mundo, é aprendizagem.

O antropólogo Roberto da Matta conta que o brasileiro tem um problema muito grande em estar em espaços onde pobres e ricos são teoricamente iguais ou têm direito às mesmas localidades. O trânsito e a fila do banco são os principais exemplos de lugares nos quais a aversão às igualdades, herança do escravagismo, vem à tona.

No trânsito, temos a convivência de todas as classes sociais. Negros e brancos, pobres e ricos, usam a mesma pista, sejam como pedestres, como motoristas, funcionários da autoestrada ou passageiros de ônibus.

Nesse lugar, a única forma de se sobressair é mostrar que não se é igual, é ter um carro grande, veloz e acelerar as pessoas, como se elas fossem menores, dirigissem pior e não tivessem o direito de trafegar por aquele local.

Em nosso país, se a separação não pode ser espacial, ela se torna violentamente simbólica. O sistema escravagista e o desenvolvimento do capitalismo colocaram a desigualdade como o objetivo a ser atingido por quem se acha superior. E isso aparece, quase sempre, com um tio, de óculos escuro, caminhonete do ano, acelerando um pobre homem negro em um corcel 72.

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